21 outubro 2020

HAICAIS

 














bebê tropeçando

nas formigas do caminho:

risinho divino.

 

***

 

o sino interrompe

a conclusão do poema:

silêncio na noite.

 

***

sabiá trinando.

parece que a vida toda

carmim se aveluda.

 

***

o longe parece

tão perto depois da prece.

ou eu que desperto?








20 outubro 2020

SEM TÍTULO

 










Mais uma criança tomba

feito árvore na floresta.

Não existe mais.

Nunca existiu,

aliás.






19 outubro 2020

ESFINGE

 















um incansável pintor

a capturar a mãe

de todas as formas. 

a fêmea ancestral

a imiscuir-se nas curvas

da história.

o ondular de eras

inglórias

o sussurrar cósmico

do tempo.

 

o ardiloso mito

inaugural

o nascedouro de todos

os enigmas.





Trabalho de Judy Scotchford, pintora australiana contemporânea.







15 outubro 2020

HERMES

 











o diabo é a greve

dos Correios.

ainda bem que deus

pai das formas breves

trafega

em meus e-meios.






14 outubro 2020

ARTEFATOS

 












Há poemas que são verdadeiros

bonsais.

Há poetas que desvelam segredos

e que tais.

Há poesia que engana com poemas

tão naturais.

 

Este aqui até que começou bem

mas só quer passar a boiada.

 

O som se insinuou de mansinho

como quem não quer nada.

 

O sentido veio junto de enfiada

e você nem sentiu a estocada.







13 outubro 2020

REVELAÇÃO

 










  tenho uma certeza

  uma epifania pessoal

  quase religiosa.

 

  o caminho que escolhi

  é o melhor

  entre os caminhos

  pois foi o que escolhi.

 

  apesar da convicção

  que me anima

  quase fanática

  não estou disposto

 

  a enforcar

  apedrejar

  jogar bombas

  atirar

  exterminar

  abraçar com morteiros no culote

  embargar economicamente

  eliminar

  civilizar ninguém

 

  por não compartilhar

  de meu júbilo

  de minha sina

  solitária. 





O monge budista Thich Quang Duc protesta contra o regime pró-católico do Vietnã do Sul e suas políticas discriminatórias contra o budismo. Foto by Malcolm Browne, 1963.










12 outubro 2020

FERIADO DE MIM

 












hoje não vou falar sobre aquilo tudo que não sei e faço de conta que sei não vou nomear o que não carece fazer aquela pergunta desnecessária e que ninguém se interessa constelação de saliva em boca seca vou ficar aqui assim desse jeito só eu e meu teclado amarelado o monitor a piscar o Word em branco a esperar palavras palavras palavras aqueles mundos não mudos que não chegam aqueles desertos habitados por ninguém hoje não








11 outubro 2020

AURORA

 










neste momento

quando meu ser se compraz

ouve-se o marulho do tempo

sutis temas de jazz


ruído branco

causa e efeitos

em emaranhado

de névoa

 

sua voz suave a sibilar

no ouvido dos seres

a sussurrar 

 

que no espaço infindo 

desta hora

de hoje 

de amanhã

ou de outrora

há algo que quer
                   pode
                   deve
t  r  i  u  n  f  a  r.








10 outubro 2020

SANTIDADE

 











após receber os sacramentos

a fé no criador

a plenitude

ele lambuzou-se todo

mergulhou

foi até o fim

nas águas 

da vida

delfim

.





09 outubro 2020

CAOSMOSE

 










diapasão a vibrar

desmedidas.

série desarmônica.

princípio das incertezas.

Heisenberg bêbado

na madruga.

 

coordenadas dis

sonantes cicatrizes

de plâncton.

ardentia sem lua.

 

saliva de estrelas

cadentes.

cintilante caos.

noite profunda

ou ela já nos diz

tchau?







08 outubro 2020

SAMBA PRA ELA

 













somos todos impotentes

perante a vida.

a vida é um sonho

ou será que é a morte?

hoje me olhei no espelho

e não me vi.

tudo que havia em mim

não reconheci.

quando eu morrer

eu quero fogo.

os lábios e o jogo

mesmo que no inferno.

 

hoje eu renasci

percebi que viver é estar

apegado à morte.

 

quando estiver realmente morto

quero ver todos chorando.

principalmente ela,

porque por ela eu já chorei

muito.

 

quando morrer,

não quero luto.

quando morrer,

eu quero ludo.

 

na hora de minha morte

vou negociar.

berrar como um bezerro.

se quiser, leva o Silva

não eu, vou gritar.

se não quiser,

leve o Bezerra.









07 outubro 2020

ORAÇÃO

 










        para Donizete Galvão




Ficamos atentos
aos ritmos,
aos movimentos
às bordas da mata.

Fiquei atento
as suas falas
aos seus escritos
que só dizem
o necessário.

Fiquei atento
aos pontos luminosos
de sua biografia lavrada
em páginas alvas.

Ainda estou atento
aos frutos tardios
que despencam
sobre nossa ignorância.

Muitos ficarão atentos
aos rizomas
que se tramam
em seu texto.

Os poetas sabem,
comungam na religião original
da humanidade.

A atenção
é nossa forma natural
de oração.









06 outubro 2020

CANÇÃO

 















quando estou sozinho

sou só

sou só eu

eu sou eu.

 

quando estás comigo

sou quase eu

sou mais que eu

sou nós

sou voz.






05 outubro 2020

VASSOURA-DE-BRUXA

 




 






Aquelas águas-vivas

envolvidas em algas e sargaços

brilhavam na areia da praia

feito diamantes não lapidados.

 

Traziam a memória de um tempo

sem começo.

Uma infância irrealizada

entre as praias e a brisa

de Ilhéus.

 

Um menino arrancado

de seu berço de sal e sol

atirado sem dó,

           sem nota

qualquer

no abraço concreto

das noites do sul.

 

Um cacau tomado

pelo fungo.

 

O exílio em outras terras

do sem fim.

 

 

 




 


02 outubro 2020

NA RODA

 











Pra encantar mulher

muzamba

 

eis aqui outra ciranda.

 

Samba

é nome angolês

 

mas quem é bamba

 

canta

até em tirolês.







Imagem: Ciranda dos Meninos, MATIZES DUMONT (bordados contemporâneos).











01 outubro 2020

EPITÁFIO

 



     






     pode crer, rapaz

     no dia de minha morte

     se eu tiver sorte

     vou estar em La Paz.








30 setembro 2020

EM PRIPYAT

 











      para Márcio-André



Enquanto o sol irradia

e a manhã nos impulsiona

sôfregos à procura

da paz

da plenitude da vida

da realização efetiva

de uma recepção ideal.

 

Um poeta revisita

corajoso

o lugar mais pacífico

do mundo

- sim, Freud, um poeta

sempre chega antes.

 

Com sua poesia,

em voz alta,

contamina o silêncio

petrificado – quase

absoluto - do local

radioativo.

 

Lá, a paz se fez

plena.

Lá, tudo conspira

a uma digna exaltação

da vida.


O poeta constata

com inapta resignação

que o coração humano

é realmente mais complexo

do que a fissão 

de um átomo.


 



[Foto da abandonada Pripyat, cidade fantasma do norte da Ucrânia. Ela ficava bem próxima à central nuclear de Chernobil, onde ocorreu o maior acidente nuclear da história]