09 dezembro 2010

Poesia grapiúna agora









Uma segunda edição pode ser comparada à releitura de um livro. Reler é coisa de quem gostou da primeira leitura ou, no mínimo, ato de quem ficou intrigado ou mexido com o que leu imediatamente. A segunda edição de um livro de poemas é acontecimento incomum, infelizmente, em nossos dias – e em verdade sempre o foi, mas tem sido cada vez mais incomum, a ponto da primeira edição já ser, ela mesma, uma raridade. Se tal acontece, é porque um milagre chegou perto de acontecer, se não aconteceu, de fato. Mas atentemos para o que afirmou Horácio: “saepe stilum vertas, iterum quae digna sint legi scripturu, neque te ut miretur turba labores, contentus paucis lectoribus”1 .

Eu, dentro de meu mundo supostamente cosmopolita, metropolitano e bastante, me sabia pouco, muito pouco, em matéria de poesia grapiúna. Sosígenes Costa, Telmo Padilha, Ildásio Tavares, Florisvaldo Mattos, Adelmo Oliveira, Cyro de Mattos, Jorge Medauar – que em verdade sempre me impressionou mais escrevendo contos – e um ou outro poema avulso de nomes que já não me ocorrem mais. Devo a um paulista de Marília o reencontro com a poesia de meu estado, o poeta e ensaísta Gustavo Felicíssimo, que vem fazendo um trabalho irreprochável e decisivo na fixação de poetas grapiúnas, dentro da história da literatura baiana e brasileira.

Diálogos revela um contato com duas alteridades: a conversa entre poetas bastante diversos entre si; a conversa entre poetas grapiúnas e o mundo, a água ou terra que cerca essa ilha ou rio. No livro ora publicado há a poesia de linguagem coloquial, que lembra muito a obra de um Robert Frost (Edson Cruz, Heitor Brasileiro), há sonetos de grande ousadia mórfica (Piligra), haicais sem qualquer ranço de outro país ou tradição (Mither Amorim), poemas que vêm da influência oitentista brasileira do puzzle, certa pulsação das regras, com seus versos sinuosos e intimistas (Noélia Estrela, Rita Santana, Daniela Galdino), um memorialismo consistente que nos faz pensar em Miguel Torga – o poeta – e alguns outros poetas portugueses do século XX (George Pellegrini), e ainda poemas que são uma mistura de linhas e destinos (os poemas de André Rosa, os de Fabrício Brandão e os do caçula da coletânea, Geraldo Lavigne, nascido em 1986, mas que “disputa” de igual para igual com os demais escolhidos). Poesia é tradução, sempre. É a busca incessante pela palavra mais adequada àquilo que se sente e que se tornou idéia, pensamento, meditação. Afirmo, sem medo algum de passar por precipitado ou leitor desatento, que os poetas aqui reunidos chegaram o mais próximo possível de si mesmos. Mais próximo do que chegaram e talvez houvéssemos perdido a escrita de cada um deles, uma vez que certamente não conseguiriam mais voltar ao mundo dos fenômenos.

A diversidade, penso eu, é uma das mais louváveis características da antologia organizada por Felicíssimo, que tem a maturidade e a inteligência de encontrar qualidade – o belo – em todo e qualquer tipo ou gênero de poesia, sem discriminações, escolas, corporativismo. Se pensarmos na origem do termo “antologia” – do grego anthos: flor; logos: de legein, colher, juntar. Daí se segue a idéia de buquê de variado perfume. Nos períodos clássico e bizantino da literatura grega, produziu-se imensa antologia de poemas curtos, de diversos autores, a Antologia Grega –, teremos entendido bem o livro que pode ser descerrado pelo leitor a qualquer instante, com todos os seus perfumes diversos.

Eu, que sou e pretendo ser, sempre, parcial – uma vez que sou pessoa e indivíduo –, não desejo esconder minhas inclinações: me identifico e sou levado facilmente pela poesia de extrema sofisticação e sutileza, realizada pelo poeta, já bem localizado em nossa mídia, Marcus Vinícius Rodrigues, diversas vezes premiado. E ainda pela poesia de Edson Cruz, cheia de sagacidade e epifanias que se desdobram para além dos pequenos poemas que costuma realizar.

Espero uma terceira edição do Diálogos de Gustavo Felicíssimo e dos poetas grapiúnas de hoje. Uma antologia é um convite para o livro solo de um poeta; é o aperitivo para uma comida mais substanciosa e “pesada”.

Para amanhã, peço uma nova antologia. Sempre.

1 – “Revolve muitas vezes o estilo, se desejas que aquilo que hás de escrever seja digno de ser lido duas vezes e não sofras porque a turba te admira, sê satisfeito com poucos leitores”, em tradução de Mary Kimiko Murashima.


Henrique Wagner é poeta e crítico de arte.

Blog do Lçto: http://livrodialogos.blogspot.com/

28 novembro 2010

MAHÂBHÂRATA




































Sinopse:

Mahâbhârata
, épico da literatura indiana, originalmente escrito em sânscrito, é uma obra imensa, que foi condensada pelo poeta Edson Cruz, como mais um título da Coleção Clássicos do Mundo, da Paulinas Editora. Livro reverenciado pelos indianos, nele estão os fundamentos filosóficos do hinduísmo. Texto precioso que trata de sentimentos e verdades universais e aponta, por meio de suas metáforas, o caminho para se viver uma vida iluminada.

Na versão de Cruz, Ganesha, o senhor dos obstáculos, é quem toma a pena e ‘molha as palavras’ para narrar o conflito entre Pândavas e Káuravas, cerne do enredo de Mahâbhârata (que significa a grande história dos Bhârata), em que duas famílias, se enfrentam em uma guerra cruel pela disputa do reino da Índia. O momento culminante da narrativa acontece quando o príncipe Arjuna, em um momento de hesitação e de tocante reflexão, confidencia ao avatar Krishna o desejo de abandonar o campo de batalha para evitar mortes de amigos e familiares. Krishna, que há muito tempo previra a queda dos Káuravas, convence Arjuna de que aquela guerra fazia parte do ‘destino’ do reino e não poderia ser evitada: “Não se pode escapar de praticar um ato que deva ser praticado e essa ação, com certeza, deixará sua marca latente.”

Intrigas, enganos, política, romances tudo se condensa em Mahâbhârata: os grandes descendentes de Bhârata, um livro em que reis, deuses, homens de boa e de má fé se encontram no palco da guerra que não apenas reivindica o poder, mas da guerra que lança luz à consciência daqueles que ainda se encontram na sombra.

Anasor, estudiosa e admiradora do livro sagrado indiano, por meio de suas ricas imagens rompendo em cores, apresenta uma leitura lúdica da narrativa, onde o palco da guerra é o picadeiro do circo, uma maneira sábia de observar as peripécias e aprendizados da vida.


Informações do autor e da ilustradora:

Edson Cruz, nascido em Ilhéus (BA), é poeta, editor e revisor. Desgraduou-se em muitas coisas e, atualmente, faz o curso de Letras na USP. Foi fundador e editor do site de literatura Cronópios e da revista literária Mnemozine. Lançou, em 2007, Sortilégio (poesias) e, como organizador, O que é poesia?. Participou de inúmeras antologias e escreve com frequência no blog http://sambaquis.blogspot.com/.

Anasor ed Searom
é o pseudônimo de Rosana de Moraes, artista plástica paulistana, autodidata, que teve sua formação em museus e ateliês, em São Paulo. Suas obras estão presentes em coleções públicas e particulares de diversos países; suas pinturas ilustraram publicações de arte e poesia.

25 novembro 2010

vestais

um coro de virgens
em uníssono:
aqueles que se alçaram
à completa inocência
- só eles -
podem tomar o fogo
sagrado de meu sexo
- que venham Bispos
do Rosário
em cardumes.
silêncio.

13 novembro 2010

A Luz da Fonia



Não sou tão velho assim como para me lembrar de coisas que eu não disse, mas lembro-me perfeitamente de duas de que eu falei: dos sonhos colectivos que me habitam, entre eles, uma idéia de sermos um só pela língua, e de ter dito em Brasília que a CPLP não funciona para a cultura. Dizer em foro adequado que algo não funciona é porque queremos que funcione, porque uma maneira de fazer com que as coisas não funcionem é dizer que elas funcionam quando não. Sabendo que a Lusofonia é uma realidade feita de vários sonhos, mas não tanto assim o inverso, isto é, a Lusofonia é um sonho feito de escassas realidades, de parcas coisas que acontecem, antes que eu me esqueça, dou fé aqui de que algo mudou e de algo que está a acontecer, ou já aconteceu. O que presenciei há poucos dias no Rio de Janeiro fez-me crer que a língua, que não é palpável senão na boca e no papel, bem pode ser um enorme campo de abraços. A nossa língua precisava de luz própria, e esta se fez, como a queria Goethe. Para já, que um evento se chame Encontros Culturais de Língua Portuguesa, foi um achado. O fenômeno contém tanta alegria e futuro em si, que, agora, impõe uma serena reflexão. Tudo porque o sucedido nesses encontros nos ultrapassou, e nos ultrapassou porque o resultado foi imprevisível. Os ECLP, finalmente, por aquilo que vi e ouvi, têm um quê de grandeza que vai além da política, da diplomacia, dos interesses, dos países e das nações, para entrar no domínio do humano, essa coisa perene que se crê eterno quando chega ao poder e quando exerce o poder sobre o seu semelhante. Eu vi humano que quer ser humano como outro humano qualquer desconhecido, desparecido, sendo apenas humano porque fala. Esses Encontros fizeram-me perceber aquilo que todos nós sabemos, mas que, estranhamente, ninguém tinha percebido até hoje, isto é, que o humano fala porque tem uma coisa que todos os animais têm, mas não a usa como nós, a língua. Até hoje, sempre quando se falou da língua e da fala e da Comunidade da Língua Portuguesa, viu-se muitos tratados e artigos, muita boa intenção, inclusive, mas não se deu importância a um músculo flexível e gorducho e por causa da qual a gente diz que namora, a língua. Quando uma pessoa diz que namora, está a dizer nada mais nada menos que ela é humana, de certeza. O resto é conversa, diz-se no Brasil. O resto é história, diz-se em Portugal. O resto é cantiga, diz-se por aí. Nesses Encontros também, A língua, iluminadamente, veio precedida de duas palavras, e que palavras: Encontro e Cultura. Ora, não sou tão velho assim, mas lembro-me perfeitamente de ter dito que a idéia de uma Comunidade de Países devia ficar pelos sapatos e delegar a Cultura e os Encontros à sua independência de gestão informal e periférica, simplesmente. Aconteceu. Os ECLP, que tiveram lugar no Rio de Janeiro em Novembro de 2010 é o tal evento que não é vento, como se costuma dizer: vi gente, simplesmente gente, sendo, simplesmente, porque era e porque o outro também era. Vi um babel de diferenças, de pessoas felizes só porque não precisavam de intérpretes para dizer o que todo o mortal deve dizer ao menos uma vez na vida, eu te amo. As línguas português, assim, sem erro de ortografia, são a razão da Lusofonia. Mas a Lusofonia tem sido um projecto político baseado no idioma. Está certo, mas nós, de Cabinda a Lisboa, da Amazônia à ilha do Sal, temos todos juntos uma constelação de mais de quatrocentos idiomas, porém uma língua comum em cada lugar, o português, que perfaz o universo das línguas português, diverso no seu sotaque e múltiplo na sua semiótica. Hão de compreender, então, o meu fascínio pelo podermos dizer eu te amo e sermos correspondidos sem outro intermediário que não seja a língua? Aconteceu, e aconteceu porque, pela primeira vez (falando dos nossos Estados), o centro não era a mesa e o tecto, mas o palco e o chão. E aconteceu porque o assunto público foi absolutamente privado, (isto é, os casacos e as gravatas ficaram em casa, a rotatividade e as presidências também, e só os povos saíram à rua para linguajar, ah como é preciso), numa altura em que vários eventos privados clamam para serem declarados de utilidade pública (o Teatro tem sido a mãe desses exemplos). Encontro e Cultura, caramba, finalmente junto e a sós. Se isso for investido, institucionalizado, como oficialmente se diz, a língua, que já foi pátria, está prenhe de vir a ser humanidade. E espero não ser suficientemente velho como para não a ver e me retrair.

Mário Lúcio




Mário Lúcio Sousa nasceu no Tarrafal, na Ilha de Santiago, Cabo Verde, em 21 de Outubro de 1964. É músico que você pode conferir em http://www.mariolucio.com/ e autor das seguintes obras: Nascimento de Um Mundo (poesia, 1990); Sob os Signos da Luz (poesia, 1992), Para Nunca Mais Falarmos de Amor (poesia, 1999), Os Trinta Dias do Homem mais Pobre do Mundo (Ficção, 2000 – prémio do Fundo Bibliográfico da Língua Portuguesa, 1ª edição), Adão e As Sete Pretas de Fuligem (teatro, 2001), Vidas Paralelas (romance, 2004). É também autor de diversas peças de teatro encenadas em Cabo Verde e no estrangeiro.
http://www.myspace.com/marioluciosousa

10 novembro 2010

A mídia tradicional já era!

Entrevista reveladora de Andrew Keen ao globonews. Ele já começa a achar que é bom a cultura estar ameaçada. Está fascinado pelo seu iPhone. Posto a parte 2 da entrevista, mas ela toda é bacana. O cara é durão, mas não é bobo. Já havia escrito sobre seu livro. Confira.

01 novembro 2010

III Simpósio de Poesia Contemporânea



                                              PROGRAMAÇÃO III SIMPOESIA




Sexta 5/11

19h Abertura do evento

19h30 Leitura

Ismar Tirelli (RJ), Marize Castro (RN), Leonardo Gandolfi (RJ), Claudio Daniel (SP), Farnoosh Fathi (EUA), Martin Palacio Gamboa (Uruguai)

video-poema “poço. festim. mosaico”, de Marize Castro


20h30 Apresentação Arjen Duinker (Holanda)

21h Leitura Bruce Andrews (USA)

21h30 Vídeopoema Cidade Reposta, Márcio-André (RJ)


Lançamentos

Títulos do selo [e] – Annablume

Selo Orpheu, editora Multifoco

Lábios-espelhos, de Marize Castro



Sábado 6/11

16h30 Debate: A novíssima poesia brasileira

Com Nilson Oliveira (PA), Antônio Vicente Pietroforte (SP) e Edson Cruz (BA/SP)

Mediação: Leonardo Gandolfi (RJ)


18h Palestra sobre arquivos digitais de poesia com Aquilles Alencar Brayner (British Library)


19h Leitura

Adriana Zapparoli (SP), Antônio Vicente Pietroforte (SP), Edson Cruz (BA/SP), Nícollas Ranieri (MG)


20h Palestra sobre language poetry, com Bruce Andrews (USA)

20h30 Leitura Erín Moure (Canadá)

21h Lançamentos de diversos títulos da Lumme Editor e da revista Polichinello

Maratona de leitura com a participação de Adriana Zapparoli, Lígia Dabul, Micheliny Verunsck, Thiago Ponce de Moraes, Nilson de Oliveira, Leonardo Gandolfi, Assis de Mello, e Glauco Mattoso.



Domingo 7/11

16h30 Painel - mulheres tradutoras (recital)

Com Marina Della Valle (SP), Telma Franco (SP), Eva Balitkova (República Tcheca/SP), Erín Moure (Canadá), Virna Teixeira (CE/SP)

Mediação: Martín Palacio Gamboa (Uruguai)


Homenagem a Wilson Bueno, por Erín Moure

17h30 Apresentação do livro fio, fenda, falésia, com Roberta Ferraz (SP) e Renata Huber (SP)

18h Leitura

Donny Correia (SP), Arjen Dunker (Holanda), Bruno Brum (MG), Beth Brait Alvim (SP), Frederico Barbosa (SP), Micheliny Verunsck (PE/SP)


Perfomance poemacumba, de Leo Goncalves (MG)

Lançamentos Arqueria editorial/ encerramento



LOCAL: Casa das Rosas (Avenida Paulista, 37)

Realização: Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo

Produção: Casa das Rosas e Organização Social POIESIS de Cultura

29 outubro 2010

Galáxias traduzidas


















Ruy Castro fez graça, mas foi infeliz. Parafrasear um texto, ainda mais um com esta voltagem poética, é matá-lo com palavras carinhosas ao pé do ouvido.  Gosto muitíssimo do Ruy Castro, mas facilitar a poesia transformando-a em prosa prosaica pode passar a ideia que Haroldo complicou um texto que poderia ter sido escrito de outra forma. E sabemos que em poesia não é bem assim. Confira.

27 outubro 2010

Um mamaluco encantador























O escritor Luiz Roberto Guedes é uma das pessoas mais bem-humoradas e informadas que eu conheço. Nos encontramos com frequência na av. Paulista, eu saindo do trampo e ele indo pagar alguma conta, e os papos se estendem com fluência. Além de grande poeta e letrista, tem escrito prosa com grande pegada. Seu livro O Mamaluco Voador é uma delícia e deveria ter tido mais repercussão.

Outra noite, passamos horas preciosas em boa prosa (bebericando um ótimo vinho argentino) com o poeta Affonso Romano de Sant’Anna.


O livro com a capa acima, foi lançado por aqui em abril. Se ele houvesse chegado na vitrine das livrarias, agora já estaria escondido no fundo dela. Confira um dos contos do livro e saiba como adquiri-lo.
 
                                                  [Alô, Alessandra]

                                              por Luiz Roberto Guedes

    O céu escureceu ao meio-dia, tão de repente que os carros acenderam os faróis. O dilúvio castigou a cidade durante horas. Chovia sempre quando o pessoal abrigado na entrada do posto telefônico viu aquele homem gordo vindo pela calçada, enfrentando o aguaceiro com um guarda-chuva pequeno demais para seu diâmetro.
   Abriram alas para ele. O gordo mais gordo que qualquer um já tinha visto. Enorme, romboide, monumental. Com macacão de jeans, bolsa a tiracolo, sandália de franciscano. Ele olhou em volta e já fez cara de contrariado.
   Viu todos os telefones ocupados, a maioria por vendedores, gente que ficava horas papagaiando, empurrando plano de saúde, curso de inglês, loteamento, clube de campo e até jazigo perpétuo em “cemitério-jardim com qualidade de Primeiro Mundo, minha senhora”, ouviu o papo de um deles.

   Ficou rodeando, impaciente. Mal um sujeito desligou, deu o bote sobre o aparelho. Tirou uma agendinha do bolso da camisa, coçou seus três queixos e teclou.
   Alô, Alessandra! É o Alex, da Teatrupe. E aí, tudo bem? Cê sumiu, nunca mais pintou no teatro. Tá estudando inglês? Vai pra Londres? Quando? Então a gente precisa se ver, tô com saudade. Vou estrear minha peça no mês que vem, sabia? O Sequestro do Prefeito. Não, não é comédia, tá mais pra tragicomédia. Por que você não vem ver um ensaio da gente uma noite dessas? Ah, cê tem que estudar. E na semana que vem? Ah, é? Ah, tá, então tá. Ligo pra você outro dia. Vou te mandar convite pra estreia, hein? Quero te ver lá. Um superbeijo!
    Folheou rapidamente a agenda.
   Oi, Isabela, como vão as coisas?
   A mil por hora. No pique da grande agência de publicidade. Sem tempo nem pra dar um “treps”. Só bizness. Tinha que entrar em reunião agora, sem hora pra acabar, a gente marca um papo outra hora.
   Era a deixa para a sua última fala. Saiu de cena com classe:
   Grande Isa! Sucesso, moça. Superbeijo! Tchau.
   Ligou para Vera, ficou sabendo que ela estava em alto mar, trabalhando num navio, em cruzeiro pelo Caribe.
   Ela volta quando, vovó? Tá bom, eu ligo em dezembro. Um beijo pra senhora.
   Pescou no bolso do macacão uma caixinha de chiclete, despejou uma pastilha na boca. Mastigou, folheou, teclou.
   Alô, Mirella, tudo bem? É o Alex. Saudade...
  Com voz macia, convidou-a para um ensaio, filme novo do Almodóvar, peça de Mário Bortolotto, show de blues, um sarau na Casa das Rosas, mas Mirella já tinha programa para os próximos 52 fins de semana.
    Oi, Fabíola... É o Alex da Teatrupe, tudo bem?
   Falava como locutor de rádio. Carinhoso, meloso, pegajoso. Tremendo bico-doce. Ganhou a atenção de todos para sua campanha romântica – “preciso de alguém para amar no fim de semana”.
    Alô, Selma, Telma, Tamara, Rossana, Silvana, Valéria.
   Ligados na novela, ouvintes involuntários foram virando espectadores simpáticos, talvez solidários, quase desejando que uma Cidinha dissesse “sim”, uma Jandira desse um trato no cara, uma Zuleide fosse tarada por um gordão.
    Ele consultava a agenda, ponderando, batucando na mesa com o polegar robusto. No ar, um certo medo de um novo não.

    Oi, Priscila, principiou sem esperança, sem vibração. Vai fazer o quê quarta-feira, sexta-feira, sábado, domingo, semana que vem? Ah, é? Ah, tá, ah, sei.
   E rugiu, áspero, amargo, indignado, quer dizer que quarta-feira você vai tingir o cabelo, sexta-feira vai buscar sua tia no aeroporto, sábado é o casamento da sua prima, domingo você vai visitar sua vovó que tá dodói, e na semana que vem também não pode? Então me diz quando é que você pode! Diz, Priscila! Quando é que você vai ter tempo? Fala, Priscila! O quê? Ah, vai tomar no teu cu!
  Bateu o telefone, pegou suas coisas e arrancou para a porta. Foi embora tomando chuva na cabeça, guarda-chuva fechado debaixo do braço.
   Houve um silêncio que não foi preenchido por qualquer comentário, e logo cada um voltou a cuidar da própria vida, ou apenas continuou esperando a chuva passar.


[In Alguém para amar no fim de semana, contos [e] editorial \ Annablume, 2010]

Para saber mais sobre o livro: www.annablume.com.br

Para ler a resposta do Guedes sobre “O que é poesia”.

19 outubro 2010

O que é poesia?



Quais são os elementos que tornam um texto poético, o que é um poema e quando há ou não poesia em um poema? Todas estas questões estão enraizadas na própria história da poesia, do poema, ou melhor seria dizer, de uma arte poética. Neste módulo, pretende-se abordar e praticar algumas das possibilidades desta arte, das mais tradicionais até as de vanguarda. Tudo isso, focado no desenvolvimento da voz poética de cada aluno em uma época de cibercultura.

 Alguns tópicos abordados:
- As distinções fundamentais entre a prosa e a poesia.
- As formas fixas na poesia. A estrutura do soneto. A canção. A oralidade.
- Definições para quem gosta delas. O que os poetas dizem sobre o fazer poético.
- A Poesia Concreta e a Internet.
- Como analisar um poema. Exemplos e exercícios.
- Concisão. O haicai como exercício poético.
- A tradução de poesia.
- Poesia na rede. Blogues e sites bacanas de poesia.

O curso faz parte da especialização em Prática de Escrita da Terracota, parceria com a Universidade Cruzeiro do Sul, coordenado por Claudio Brites e Nelson de Oliveira. Mas pode ser frequentado como curso livre.

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Público-alvo: Estudantes, escritores diletantes, professores e pessoas interessadas
Certificado: Será conferido pela Universidade Cruzeiro do Sul e o Espaço Terracota
Início: 7 de dezembro de 2010
Término: 1 de março de 2011
Duração: 24 horas
Horários: Terças, das 19h30 às 22h30 – o professor chega às 18h30, para atendimento individual.
Calendário: Dezembro: 7, 14, 21; Fevereiro: 1, 8, 15, 22; Março: 1.
Haverá uma pausa durante janeiro, para que os alunos trabalhem em seus projetos.
Número de vagas: 7
Local do Curso: Espaço Cultural Terracota – Av. Lins de Vasconcelos, 1886 – Aclimação – São Paulo
Investimento: 350 reais (pode ser pago em 2 vezes)
Dúvidas, informações: 11-2645-0549
Matriculas pelo email contato@terracotaeditora.com.br
Visite o site do curso aqui

Edson Cruz é escritor e revisor. Foi co-fundador e editor do Portal Literário Cronópios e da revista Mnemozine. Publicou o livro de poemas Sortilégio (2007), pelo importante selo Demônio Negro. Organizou o livro O que é poesia? (Confraria do Vento, 2009). Mais sobre ele aqui.

15 outubro 2010

Arquivos Incríveis de JA

Conheci o jornalista João Antonio lá em Campinas, nas Rodas de Leitura organizadas pelo Sesc. Ele é um grande pesquisador, colecionador e envia pérolas por email selecionadas de seus Arquivos Incríveis.

Quando lançarmos o site MUSA RARA, João terá uma coluna especial para mostrar seus achados.

Olha só o que ele garimpou:

ANIMA 2 , revista de literatura e cultura, de abril de 1977.




13 outubro 2010

A poesia diz SIM



Vem aí mais um evento SIMPOESIA 2010. A poeta pernambucana Micheliny Verunschk lançará seu 3º livro, "Cartografia da Noite" durante o evento. Confira e participe.



Um suicídio

A aranha
delicada
lambe-me
entre os dedos
e uma luva
de veludo negro
se espalha por todo o braço.

Do outro lado,
a outra mão,
pálida como a neve
sangra maçãs
sobre um bilhete
inacabado.

Não há espelho
ou beijo
que as despertem.

Paralisia.

***

Coliseu

Os carros rugem.

Espera de arenas, o círculo das batalhas.

A cidade se oferece: carne.

Abre a sua guarda
e os leões colidem,
esfomeados.

Hostes e dentes,
o seu nome é Legião.

***

Naufrágio

Silêncio,
agora me destroço,
mastro retorcido,
casco arrebentado.

Meu nome encontra
o rosto da sereia cega
e decepada.

Meu nome encontra o nome
desse país provisório
entre a vida e a água.

Vértebras.

Pele furada.

Olho de baleia.

Agora é a minha deixa.

Coluna dolorida
tocando o abismo
desse céu inverso.

Incisão de agulhas de tricô.

Silêncio.
Agora me atravessam
pregos,
travessões.

Silêncio,
agora começou.



Micheliny Verunschk,  escritora pernambucana, escreveu Geografia Íntima do Deserto (Landy Editora), livro finalista do Portugal Telecom de 2004,  e O Observador e o Nada (Edições Bagaço). Tem trabalhos publicados nos Estados Unidos, Canadá, França e Portugal.

01 outubro 2010

Só para mamíferos



Em  João Pessoa, encontrei-me com o ficcionista e editor Pedro Salgueiro, que me mostrou seus novos rebentos: dois números da revista Para Mamíferos. Uma grande surpresa a revista. Criação de alto nível, traduções, entrevistas, dossiês, fotografia. Esses cearenses, realmente, não brincam em serviço. Já havia comentado, recentemente, sobre o Corsário, que além de virtual também terá edição impressa. Carlos Emílio C. Lima me avisa que recebeu um prêmio para continuar editando a famosa Arraia PajéUrbe. Que, por sinal, também terá versão on-line.

Na edição 1 da revista, temos um conto inédito de Dalton Trevisan (O viúvo) e uma longa entrevista com a escritora Ana Miranda (e suas múltiplas dicções) que diz coisas como:

“Acho que é do Mário Quintana a frase que diz que os livros não mudam o mundo, quem muda o mundo são as pessoas, os livros só mudam as pessoas. Depois de ler um livro, a pessoa não é mais a mesma, claro, é um processo antropofágico de devoração mútua, o leitor se transforma no autor e o autor se transforma no leitor.”







 E sobre seu romance mais recente, Yuxin:

“Meu novo romance percorreu um longo caminho, desde um sonho que tive nos anos 1980, ao ler os textos instrumentais de Antonio Vieira, um sonho com o padre Vieira e uma índia que lhe remendava a batina, até chegar a Yuxin. Sempre desejei entrar no tema indígena, porque somos, os cearenses, descendentes de índios, carregamos a alma indígena em nosso ser. E porque minha irmã Marlui Miranda manteve esse tema vivo em minha vida, trazendo-me seu trabalho com a música indígena. […] Minha irmã saía em direção a alguma aldeia, e retornava trazendo a atmosfera selvagem. Mas com tudo isso eu não conseguia penetrar na dicção de uma narradora índia, o material referente à fala dos índios é parco, eles são ágrafos, e quando publicam, geralmente é usando padrões não-índios. Então eu só encontrava pequenos depoimentos citados em livros, ou ouvia as gravações de minha irmã. Um dia encontrei um livro preparado por Capistrano de Abreu, um vocabulário da língua caxinauá, com umas setecentas páginas de depoimento de dois índios, na língua original e traduzidas literalmente, onde pude observar a construção, as repetições, o ritmo… era o que eu mais desejava encontrar. Mergulhei no livro, e ele foi me afastando do sonho com Vieira, levou-me a uma situação pessoal, pois a região a que se refere o livro de Capistrano de Abreu foi colonizada por cearenses, no Alto Juruá, Acre. Essa é mais ou menos a gênese do livro. Ele é uma narrativa da floresta, são as vozes da floresta, cantadas pela voz de uma índia. Os índios não têm um ego, como nós, então ela, a floresta, os bichos, são um ser só.”

Sobre crítica literária:

“A verdadeira crítica literária é benéfica, e isso existe no Brasil, embora encerrada no meio acadêmico. […] A imprensa tem altos e baixos. É algo mais com o intuito de reportar, do que de refletir sobre algum livro. É mais notícia do que crítica, e feita em más condições, pressa, falta de recursos, muitas vezes por jornalistas não especializados, que se vêem com caixas pretas em suas mãos. […]”

Nessa mesma edição, a revista disponibiliza encartada a reprodução de uma página do texto original do romance Yuxin. Um quitute para a crítica genética.







E olha que só dei alguns exemplos da edição 1. Imaginem, então, a Nº 2.

A revista é editada por: Glauco Sobreira, Jesus Irajacy, Nerilson Moreira, Pedro Salgueiro, Raymundo Netto e Tércia Montenegro. O projeto gráfico é de Saul Ferreira. Para conseguir um exemplar, envie um email para paramamiferos@gmail.com

Que venham mais rebentos como esses. Aguardo, também, notícias literárias do incansável Nilto Maciel – que por sinal está de site novo.

29 setembro 2010

Cibercultura e Correio das Artes



Estreio no Correio das Artes, suplemento cultural encartado no jornal A União da Paraíba, uma coluna mensal intitulada de CIBERCULTURA. Confira o primeiro texto (acima) e, se quiser receber o PDF da edição do Correio por email, envie uma mensagem para mim [sonartes@gmail.com] ou para seu editor, Astier Basílio [astierbasilio@gmail.com].

28 setembro 2010

Cultivando engenhos


As oficinas literárias vieram pra ficar. São necessárias e em certa medida até imprescindíveis, principalmente se os autores que as procuram têm algum talento. 


Sim, talento não se pode aprender. Não se pode dar, nem ensinar. Mas, quando há talento, a magia da literatura pode acontecer com mais eficácia, cultivada pelas trocas, questionamentos, sugestões, senso crítico, escrita consciente, releituras e faíscas emanadas pelo grupo e incentivadas pelo coordenador que, ao final do milagre, desaparece enquanto todos estão se olhando maravilhados.

Parece-me que é isso que o escritor e coordenador das oficinas literárias “Erro mas escrevo”, Marne Lucio Guedes, nos oferece com esta seleta de contos de seus engenhosos oficinandos. Autores talentosos, manejando com graça e sem ingenuidade as ferramentas da criação literária. 

O que mais poderíamos pedir? Todos eles já poderiam estar com seus livros de contos na praça. Agora é só uma questão de tempo e de persistência.

Podemos gostar mais da pegada de um autor do que a de outro. Isso é esperado e antologias tendem a realçar, por contraste, tal característica. Neste caso, a fatura está liquidada e o saldo é extremamente positivo.

Carlos Kieffer é um dramaturgo de mão cheia. Escreve com um bisturi entre os dedos e uma consciência dramática rara. Seus contos são os mais coesos do livro.

Livia Lima arrisca-se em busca de sua voz narrativa. Esparrama-se feminina, quase barroca, mesmo quando seu narrador é masculino. 

Walter Solon é um garoto que escreve como gente grande. Tem fôlego e imaginação de romancista. Seu conto “Linhagem”, embora ainda calcado no mestre Graciliano Ramos, é uma pequena pérola construída com esmero.

Maria Maximo tece as relações humanas com sutileza em seus contos. “Fendas” talvez seja o melhor resolvido e mostra um caminho de ousadia muito bem-vindo, com seu artifício poético-visual na caracterização do sonho da personagem.

O milagre foi feito. Agora é desaparecer enquanto os leitores folheiam estas páginas. E que edição, hein? Tudo preto no branco. Ou será o contrário?

[Texto escrito para a "orelha" do livro Seiva e Risco, Terracota Editora]

26 setembro 2010

Noites de Autógrafos






















“Imagino a inveja que provocariam em qualquer cartunista da revista The New Yorker. ‘Com mil demônios! Por que não tive essa idéia antes?’ Agora é tarde, dude; Reinaldo sacou primeiro. E acertou na mosca.”

Sérgio Augusto, no prefácio do livro, tem razão. Embora eu não seja nonada da New Yorker, muito menos cartunista, foi assim que me senti ao ver o livro do cartunista carioca Reinaldo Figueiredo.

Imaginem a noite de lançamentos de Homero, Shakespeare, Machado de Assis, Julio Cortázar, entre outros grandes. Quem compareceria?

Imagine uma noite de autógrafos na qual Fernando Pessoa recebesse seus heterônimos ansiosos por um autógrafo.

É isso o que fez o cartunista, com o acompanhamento de um pequeno comentário biográfico sobre o autor em questão. Uma delícia.

Vejam com seus próprios olhos, alguns exemplos:



JULIO CORTÁZAR

(1914 – 1984)




Escritor argentino que viveu muito tempo na França. Um dos mestres da chamada literatura fantástica, é autor do romance O Jogo da Amarelinha e do livro de contos Histórias de Cronópios e de Famas. A primeira vez que usou a palavra “cronópio” para definir um tipo especial de criatura foi numa espécie de crônica sobre um concerto de Louis Armstrong, em Paris. O texto está na coletânea A Volta ao Dia em Oitenta Mundos.


***












Editora: Desiderata

Reinaldo Figueiredo
foi um dos fundadores do tablóide de humor O Planeta Diário, em 1984, e se tornou famoso como integrante do grupo Casseta & Planeta, no qual interpreta personagens antológicos como Osama, Devagar Franco e Ótima Bernardes. Foi colaborador do Pasquim e já publicou ilustrações em revistas como Chiclete com Banana, Bundas, Jazz+ e Piauí.
E-mail: reinaldofig@gmail.com

23 setembro 2010

Jornal MEMAI e Micropolis


























O jornal de Letras e Artes japonesas, MEMAI, lança seu quinto número e completa 1 ano de circulação. Seu nome significa, em japonês, “Vertigem” e constrói pontes híbridas entre o Oriente e o Ocidente.

Nesta edição, com essa capa maravilhosa, podemos encontrar um artigo sobre a gravura japonesa que influenciou pintores como Van Gogh, Manet e Gauguin.

Conheci sua simpática editora, a jornalista Marília Kubota, na Casa das Rosas. Pelo Correio, ela me enviava os números do jornal, antes de aparecer no lançamento do livro “O que é poesia?”. Ela também é haicaista e nos oferece, em primeira mão, um pouquinho de suas micropolis iluminações.

O projeto gráfico do jornal é da artista plástica Sandra Hiromoto. Você pode conferir o site www.jornalmemai.com.br e se quiser assinar ou conhecer na faixa, mande um email para contato@jornalmemai.com.br


Micropolis
Por Marília Kubota



De repente
A luz alumia a casa
Um bando de vagalumes


Névoa na cidade.
Cantam os pneus da bicicleta
o ciclista  assobia.


Passeio no entardecer.
O velho descansa na varanda.
Pantufas vermelhas.


Tarde de calor.
O elefante, a girafa, a moça,
Deslizam em nuvem.


Flores de ipê
Caídas na calçada nova
No coreto discursos velhos.


Na fimbria do dicionário
a fileira de formigas
obstrui a pesquisa


Tarde de calor.
O gato aguarda espetáculo:
a dança do mosquito.

21 setembro 2010

Piratas, não. CORSÁRIOS.






















A revista Corsário está novamente on-line, comemorando seu quinto ano de existência, e com projeto engatilhado para uma revista impressa. Os cabras tem até editora e já haviam disponibilizado vários livros em PDF em suas edições anteriores.

O Ceará é realmente um celeiro alternativo (ao pretensioso Sul maravilha, claro) e produtivo do que melhor se vem fazendo em literatura e suas adjacências, no ciberespaço ou não. Não dá pra falar em literatura na internet sem citar o pioneiro Soares Feitosa e seu Jornal de Poesia ou Floriano Martins com sua revista Agulha (que agora hospeda-se nos braços do Jornal de Poesia).

A nau capitaneada pelo poeta e agitador em novas mídias, Mardônio França, não pede licença e sangra sem compaixão os mares bravios da mediocridade internética.

Se você não acredita, é só conferir: www.corsario.art.br/

19 setembro 2010

O computador enquanto suporte da nova literatura

















[Amador Ribeiro Neto, Marcelino Freire, André Ricardo Aguiar e Edson Cruz]

Texto lido por Amador Ribeiro Neto em João Pessoa, no Agosto das Letras, na mesa de debate: “Literatura e Novas Mídias”


Nestes tempos de Internet, a pergunta que mais se faz é se o livro deixará de existir. Depois da era das imagens voltamos à era alfabética, nos diz Umberto Eco em seu mais recente livro, intitulado Não contem com o fim do livro. Nunca se leu e escreveu tanto como agora. O livro, ainda segundo Eco, não desaparecerá. “O livro é como a colher, o martelo, a roda ou a tesoura. Uma vez inventados, não podem ser aprimorados”. O livro um dia talvez não tenha páginas de papel, mas ele permanecerá como é.

O livro que um dia Mallarmé projetou, depois Borges sonhou – e antes deles, Heródoto quis –, este livro virou realidade. Mas realidade virtual. Este livro é o ciberespaço da infolinguagem.

Para Lucia Santaella, em Culturas e Artes do Pós-Humano; da cultura das mídias à cibercultura:

“Dos anos 90 para cá, estamos assistindo a uma nova revolução que (...) provavelmente trará consequências antropológicas e socioculturais muito mais profundas do que foram as da revolução industrial e eletrônica, talvez ainda mais profundas do que foram as revoluções neolíticas. Trata-se da revolução digital e da explosão das telecomunicações, trazendo consigo a cibercultura e as comunidades visuais. (...) Na ciberarte (...) as tradicionais divisões de papéis entre emissor e receptor se ampliam sobremaneira, com a sua condição interativa, a tradição das artes expositivas-contemplativas e mesmo das artes participativas”.

O texto eletrônico, por não se fixar em suporte material, como a folha de papel, possibilita o acesso à distância em tempo real. Ou seja, o texto, sem a materialidade do papel, pode ser lido por múltiplos (ou milhares) de leitores ao mesmo tempo, com tais leitores em espaços geográficos diversos.

A biblioteca universal chegou. O grande livro, soma de todos os livros e bibliotecas, tão almejado, está on line. Está no ciberespaço. E o ciberespaço (espaço com inovações da eletrônica, da cibernética, da computação, da informação, da comunicação) chegou rápido – e rapidamente está mudando a ordem econômica, a ordem social, a ordem cultural, etc. Enfim, está mudando a linguagem. Sociedade da informação, era do virtual, vida digital, homem semiótico, hipertexto, infopoesia, e-book são realidades instauradas em nosso tempo.

As escritas hipertextuais estão gerando uma economia na escrita, mudando a língua, a linguagem, a literatura. O ciberespaço ultrapassa a nossa capacidade de imaginação e, é claro, nos dá sentimentos de gozo e medo, ao mesmo tempo. Afinal, o novo assusta. “À mente apavora o que ainda não é mesmo velho”, canta Caetano. Oswald disse: "língua natural e neológica".

Por estas e outras, o novo, o velho, o novelo, o novelho está nos envolvendo em cada linha, em cada palavra, em cada música, em cada pensamento, com esta língua de literaturas, saberes e sabor.

Borges um dia declarou: "Dediquei grande parte de minha vida às letras, e creio que uma forma de felicidade é a leitura".

Literatura: cursor de novos jogos, brincadeiras, armações, engenhos e engenhosidades: a língua proíbe e a literatura libera. Apenas proibição ou apenas liberação geral não dão em nada – ou levam à barbárie. O lance é continuar deixando literatura e língua trocarem seus beijos sem ter conta e sem ter fim.

Literatura: ludismo à mancheia. Exuberância. Pletora sem fim.

Com a mudança do meio de produção, ou da mídia de produção, se assim preferir-se, altera-se o modo de recepção do objeto literário. Walter Benjamin já nos chama a atenção para a nova mudança da postura, também física do leitor, diante do surgimento do jornal – em confronto com o livro.

Da mesma forma a tela do computador impõe, não somente mudança na postura física do leitor, como na assimilação das novas mensagens.

Diante de imagens que movimentam-se associadas, ou não, a sons e cores, o repertório do receptor pede atualização face a esta nova realidade da obra artística.

Mais que objeto cultural – como pontua o semioticista russo Chklóvski – o texto literário é um processo cultural singular, desautomatizador, gerando novas percepções do objeto artístico e do mundo em si.

Em tempos de novos suportes e recursos tecnológicos, a poesia farta-se nas múltiplas possibilidades de criação face às novas mídias. Estudar as representações daí advindas é um desafio aos estudiosos da poesia, bem como aos poetas. Arte-ciência-tecnologia embrincam-se, mais que em outras épocas históricas.

O computador é hoje a grande máquina semiótica, afirma Pedro Barbosa, ensaísta português especializado em ciberliteratura. Na tela do computador desfilam signos dos mais variados matizes, questionando as formas de absorção das novas linguagens. Para Santaella, “qualquer descrição do computador é uma evidência de seu caráter simbólico e cognitivo”. Frente a este universo desafiador e estimulante, a poesia encontra um espaço a mais para as suas sempre renovadoras formas de manifestação.

Para o semioticista português Rui Torres o cibertexto (ou o texto em meio digital) modifica o uso inicial do computador, até então utilizado como máquina de armazenamento. A partir de agora o computador pede um uso criativo. E é neste momento que surge a poesia digital. E, como consequência, altera-se nosso modo de percepção do mundo, gerando uma nova epistemologia.

Ainda segundo Rui Torres, o computador modifica e amplia tanto a leitura como a escrita. Assim, o semioticista português apresenta três posturas abarcando a criatividade literária e o meio digital. São elas: 1. o hipertexto e a hiperficção; 2. o texto animado, interativo e multimídia; 3. o texto gerado por computador. Tais modalidades problematizam a mentalidade analógica e abrem caminhos para novas formas de expressão da literatura – e da poesia, em particular.

O hipertexto é o mais permanente e o mais visível. Desde a organização dos arquivos de bibliotecas que as disponibilizam a distância (é o lado permanente) até a cara e o prefixo da www – world wide web – até o http:// - hipertext transfer protocol (é o lado mais visível). Por isto mesmo o hipertexto é a mais conhecida das modalidades do cibertexto. Diz Rui Torres: “o hipertexto interessa aos estudos literários e culturais no sentido em que ele nos leva a identificar, no tipo de escrita não-linear e sequencial que o caracteriza, a própria noção de literariedade”. E continua: “Por outro lado, o hipertexto permite-nos rearticular, através principalmente da hiperficção, os conceitos de dialogismo e intertextualidade, o primeiro proposto por Bakhtin e o segundo por Julia Kristeva”.

A tendência do hipertexto para a autorreferencialidade (“a tomada de consciência acerca do próprio meio em que se inscreve”) o relaciona com a pós-modernidade. A convergência entre hipertexto e narrativa metaficcional faz-nos repensar as ligações (linkadas), a colagem, a mistura e a combinação tendo em vista o movimento do diálogo e a variação. Dentro da perspectiva rizomática de Deleuze e Guatarri não interessam o centro ou a periferia mas as conexões e a pluralidadade daí advinda. O rizoma é, por definição, anti-hierárquico: todos os pontos que constituem o sistema estão interligados; qualquer ponto de um sistema rizomático pode estar ligado a outros sem obedecer a regras hierárquicas.

Dentro de uma linha não-linear de descentramento, o hipertexto destaca-se por conceder ao leitor o papel de construtor de sentido. Nele o leitor torna-se autor, ou co-autor já que é ele quem manipula a informação através das escolhas que faz.

O texto animado, multimídia, interativo dos blogs, twitters, orkuts e etc., têm feito emergir uma literatura que, mais que em épocas precedentes, toma o leitor e a linguagem como vetores. O princípio norteador de O jogo da amarelinha, os labirintos borgeanos, etc., agora são matéria concreta de uma nova escrita, dos manuscritos de computador. A poesia animada por computador, ao trazer para o universo da criação novos componentes como o efetivo movimento e a interatividade, abre portas e janelas para novos campos da criação. O que é altamente estimulante para a nova literatura – e em especial, para a nova poesia, a poesia digital (ou ciberpoesia, ou infopoesia – já que a terminologia ainda não foi fixada).

Por fim, o computador passa a gerar textos. A inteligência artificial nunca foi tão natural como agora. O computador é uma máquina semiótica por excelência. Gera signos e linguagens. Tanto a partir de programas pré-estabelecidos, como através de programações aleatórias – e portanto inesperadas.

O livro pode não desaparecer, como afirma Eco, mas seu modo de compor já é outro. Sorte da literatura, que se renova depois de renovar tantas mídias, como o cinema, a tv, o vídeo.



Referências bibliográficas:

ECO, Umberto & CARRIÈRE, Jean-Claude. Não contem com o fim do livro. Trad. André Teles. Rio de Janeiro: Record, 2010.

SANTAELLA, Lucia. Culturas e artes do pós-humano; da cultura das mídias à cibercultura. 2ª ed. S. Paulo: Paulus, 2004.

TORRES, Rui. “Poesia em meio digital: algumas observações”. In: GOUVEIA, Luís Borges & GAIO, Sofia (Org). Sociedade da Informação: balanço e implicações. Porto: Edições da Universidade Fernando Pessoa, 2003.



Amador Ribeiro Neto é autor, em parceria com Roberto Coura, de "imagens & poemas" (ed. UFPB, joão pessoa, 2008). É organizador e co-autor de "muitos – textos sobre caetano veloso" (ed. orobó, montes claros-mg, no prelo). É autor de “Poemail”, livro de poemas, inédito. Também organizou e é co-autor de "literatura na universidade" (ed. UFPB, joão pessoa). É co-autor de "chico buarque do brasil", organizado por rinaldo de fernandes, rio, garamond; de "quartas histórias", organizado por rinaldo de fernandes, rio, garamond e de "capitu mandou flores", organizado por rinaldo de fernandes, s. paulo: geração editorial, 2008. E-mail: amador.ribeiro@uol.com.br


15 setembro 2010

Fogo na bacurinha






















Desconcertante este Almodóvar. Ao terminar de ler o livro não sabemos por onde começar a falar sobre ele. Se começamos pelas entranhas, pelo que recobre as entranhas, ou mesmo, pelo que penetrou nas entranhas. Em todo caso, há um calor que emana pelo texto e vai crescendo até se tornar puro fogo. Um fogo que queima as bacurinhas das mulheres madrileñas retratadas, e que se espalha, acabando por consumir a todos como lenhas numa Madri em chamas. 


O bacana do livro é a forma direta, sem firulas, e irônica como são narrados os acontecimentos. Acontecimentos às vezes inusitados, que poderiam ser inverossímeis, mas narrados como são, nos parecem histórias mais do que reais. Enredos de um filme de Almodóvar. Um estilo sem pretensão de profundidades, mensagens, ou outras moralidades, e que por isso mesmo encanta e nos dá prazer. 



O romance, pelo que nos consta, foi a estreia de Almodóvar no gênero, lá pelos idos de 81, longe ainda da produção cinematográfica pela qual viria a se tornar uma referência do cinema espanhol moderno. O livro esgotou-se rapidamente e, por estas bandas, já está na quinta reimpressão desta coleção que recupera, com bom gosto e estilo, livros raros da literatura underground e folhetinesca: a coleção Babel. 



As teorias e postulações críticas que visam compreender o gênero chamado de romance sempre deixaram a desejar, em todos os tempos. Há sempre aquela produção que surge para desbancar as formulações mais elaboradas e fechadas. Produções que exigem dos críticos reformulações de escopo e postulados. Não que Fogo nas Entranhas tenha sido gerado com esta intenção, nem que seja um exemplo acabado de romance esteticamente revolucionário, mas a simplicidade de suas formulações atinge por vezes uma poesia estranha, que muitas vezes obras de maior fôlego, e rebuscamento, ficam longe de atingir.

Parece-me que alguns romances são impermeáveis a um olhar mais tradicional da crítica literária. Toma-se o romance, quase sempre, a sério demais, como se ele se tratasse de um documento de época, uma confissão, ou uma história autêntica, pessoal. Quando a seriedade do olhar não encontra ressonância na obra, descartam-na como sendo irrelevante para a arte literária de uma época.

Acontece, por vezes, que a literatura nas mãos de um ‘artista’ tem sempre um objetivo estético e que - mesmo não compreensível nos parâmetros que estamos acostumados - possui uma coerência interna que se afina e se afirma com o diapasão de quem a produz. 


É o que acontece com este pequeno romance de Almodóvar. Um recorte da vida que obedece a propósitos específicos. Revestido de uma linguagem paródica, intensifica nossa relação com a vida e nos faz aceitá-la com toda a carga de magia e absurdo que possa nos acarretar. 



A graça deste romance está na forma como ele desenvolveu a estória de Chu Ming Ho. Um chinês que chegou à Espanha nos anos 50 e prosperou, pois era hábil, astuto e artesão. Ou será que prosperou por que era chinês? 



Tudo é contado de maneira não linear, como uma história em quadrinhos entremeada de várias tramas paralelas, até chegar ao nó central que as unifica e dá sentido: o testamento do chinês. 



Abandonado pelas cinco amantes, que nos são apresentadas com vagar, este próspero industrial de absorventes femininos prepara uma vingança flamejante às suas ex, e por extensão, a todas as mulheres e mesmo a toda a cidade. 


                                           

O Testamento 



“...trabalhei minha vida inteira com e para as mulheres, e nunca cheguei a conhecê-las. Só descobri uma coisa: louras, morenas, ruivas, altas ou baixas, todas são iguais. Umas vadias. Ainda assim, reconheço que devo meus melhores momentos a elas - e os piores também. Mas não me arrependo de nada. Dediquei todos os dias da minha existência a esse milagre que elas guardam no meio das pernas, uma coisa tão delicada que justifica todos os meus esforços. Por isso não quis ir embora sem render-lhes um pequeno tributo: meu último modelo de absorvente, diminuto, transparente, que estimula, tonifica, desinfeta, com vitaminas E e U, cloruto potássico, etc. Utilizável todos os dias do mês, e não apenas no período da menstruação. Como prova de agradecimentos, determinei que durante uma semana todas as clientes possam ter de graça um pacote de absorventes. Depois, o artigo começará a ser vendido normalmente.

Deixo minha indústria para aquelas que foram minhas principais amantes, ou seja: Diana, a orgulhosa; Mara, a cínica; Katy, a abelhuda; Lupe, a hippie; e Raimunda, a freira. Podem vender tudo, ou fazer o que quiserem. Só imponho uma condição: que durante meu enterro, e na presença de um tabelião, as quatro usem um dos meus absorventes último modelo. Acho que tenho direito a esta homenagem póstuma. E fico satisfeito em saber que sejam elas as primeiras a desfrutar de todas as suas vantagens. A que por algum motivo se negar, ficará automaticamente excluída da herança.

Não sinto rancor por nenhuma. Adeus”.




O que se segue a partir daí me lembrou o romance Ensaio sobre a Cegueira de Saramago. Só que Saramago é grave e Almodóvar hilário. Em Almodóvar as mulheres ficam cegas é de vontade de dar depois de usarem este bendito absorvente. As caras ficam crispadas e os olhos selvagens a cata de um macho que possa aplacar o furor uterino que lhes consome. Claro que os homens não dão conta do recado. Alguns até tentam. Outros alegram-se pela oportunidade de tirar a barriga da miséria, ou melhor, o peru. Mas o prazer é fatal, pede seu quinhão de vida em troca. 



Instaura-se a peste pós-moderna. O êxtase, o céu e o inferno têm moradas em Madri. O esplendor do caos deita-se e copula com todos. Como apagar esta fogueira que se consome? Como é Almodóvar, a cura não existe, o efeito não se desvanece de uma hora pra outra e tudo volta ao ‘normal’. A chama continua com suas labaredas. Você pode fugir delas, se refugiar, se embebedar, até dormir em paz, mas elas continuam a arder. 



Ardem tanto que há relatos e relatos de mulheres e homens que depois de lerem Fogo nas Entranhas saíram por aí com uma vontade danada de dar. Claro que levaram quilos de camisinha na bolsa, pois já não estamos mais em 81, né?


Bibliografia de Almodóvar
Fuego en las entrañas, 
Madrid, ed La Cúpula, 1981. El Víbora, colección Onliyu



Site sobre Almodóvar:

09 setembro 2010

Mecanismos Precários






















Mecanismos precários é uma coletânea de dezessete poderosos contos sobre a turbulenta existência na metrópole. São narrativas intensas e vigorosas, que contemplam os muitos lados da vida em sociedade: a poesia e a violência, a fraternidade e o medo, o humor e o amor etc.
Do realista ao alegórico, passando pelo subjetivista e pelo nonsense, uma ampla gama de registros literários sustenta essa reunião de vozes narrativas.
Participam do livro alguns dos melhores ficcionistas brasileiros da nova geração (Edson Cruz, Marcelino Freire, Nelson de Oliveira, Luís Marra e Marcelo Maluf) ao lado de jovens promessas não menos talentosas.

Autores: Ábia da Silva Gomes, Alexandre Heredia, Claudio Brites, Edson Cruz, Eduardo Sigrist, Laura Fuentes, Marcelino Freire, Marcos Roma, Nelson de Oliveira, Nelson Lourenço, Patricia Cytrynowicz, Ricardo Delfin, Tiago Araújo, Valéria Piassa Polizzi, Deborah Panachão, Luís Marra e Marcelo Maluf.


Prefácio:

Contos cortantes e perfurantes

A pintura mais famosa de Pablo Picasso retrata uma cidadezinha basca — Guernica y Luno — bombardeada pelos nazistas a pedido dos nacionalistas espanhóis, durante a Guerra Civil.
A grande tela em preto e branco, em estilo primitivista e cubista, mostra corpos mutilados e incendiados, de pessoas e animais. Terrível.
Dizem que um oficial nazista, horrorizado com a feiúra da tela, perguntou ao pintor: “Foi você quem fez isso?”
Picasso respondeu: “Não. Foram vocês.”
Toda a arte e toda a literatura modernas tratam da feiúra do mundo. Essa é sua forma de protesto: denunciar as injustiças e a crueldade, mostrando-as.
Os contos reunidos nesta antologia, fiéis a esse princípio, incomodam, inquietam. Podem até chocar. Mas não culpem os autores por isso. Culpem a própria sociedade.
Mecanismo (substantivo: “combinação de peças que fazem funcionar uma estrutura orgânica ou mecânica”) precário (adjetivo: “que está em más condições e não cumpre a contento seus propósitos”) é tudo o que funciona mal na sociedade. Tudo o que corta e fura, provocando angústia e dor.
Mecanismos precários somos todos nós: tesouras na própria carne.
A função da literatura é revelar isso, por meio do mergulho estético. E assim nos salvar de nós mesmos.

Os organizadores