22 setembro 2026

UM CANTO NA FLORESTA

 



            Edson Cruz foi um dos primeiros amigos que fiz na selva de São Paulo. Assim: nas plantas concretas de suas esquinas. Escritas. Pelo som de uma palavra. Umas páginas abertas. Waly, Ilhéus, logo acolá.
            Foi na Rua Girassol. Ou antes: na Purpurina. Ou no quintal de Campo Grande, Mato Grosso do Sul. Quem sabe ainda no Recife? Não importa em qual miragem. Essa amizade.
            Ele quem primeiro me abriu a porta de Bispo do Rosário. Aquela cela de seus mantos. Os panos do budismo. Goles de sabor saquê. A filosofia guia dos terreiros. Nos Campos de Augusto. Pôs para eu escutar a mosca de Walter Franco. Não me esqueço: de a gente na casa do guitarreiro Luis Vagner à Rua Simpatia. Um passeio afro sulrealista que fizemos em Atibaia, cidade chão constelação do nosso mestre André Carneiro. À vera, feito Eunice Arruda, o poeta desde sempre me plantou uns haicais bonsais. Compusemos até juntos umas ladainhas. São testemunhas Estela Luz, Fabiana Cozza, Sourak, Manoel de Barros, Adrienne Myrtes, Valter Hugo Mãe. Xangô, Ossanhe.
            O tempo é o melhor livro. Hoje ele, nuvem, me vem com este belíssimo Satori na Laje. Eu arrepio. Porque preciso. Esse clássico luminoso. Porque tem aí uma natureza expandida. Uma mente aguçada. E quieta. Na calmaria de sua poesia liberta-se o pão de cada dia. Perversos não são os versos, mas o que fica da linguagem à margem. Ela que nos alerta das milhares de luzes que ofuscam tanta miséria. Coirmão, este meu irmão, de Ricardo Aleixo, Nelson Maca, Geni Guimarães. Bashô, Buson. Tão mestre quanto quântico. Cruz que carrega lajeando as estrelas. Na companhia de Tom Zé e Waits. Das capivaras às beiras da Cidade Universitária. Salve e salve!
            Satori é um volume de belezas, delicadezas acesas. Um tanto de tanta alegria esse nosso reencontro aqui, nessas linhas. Em um mundo que cada vez mais necessita de samba e de mar. De uma ternura para poder voltar a sonhar. É possível. Não é pouca coisa o que a gente conseguiu cultivar.
            Em bom portunhol, “Gracias, muy querido amico”.
            O resto deixemos a floresta, que nos resta ao redor de nós, cantar. 

MARCELINO FREIRE