Edson
Cruz foi um dos primeiros amigos que fiz na selva de São Paulo. Assim: nas plantas
concretas de suas esquinas. Escritas. Pelo som de uma palavra. Umas páginas
abertas. Waly, Ilhéus, logo acolá.
Foi
na Rua Girassol. Ou antes: na Purpurina. Ou no quintal de Campo Grande, Mato Grosso
do Sul. Quem sabe ainda no Recife? Não importa em qual miragem. Essa amizade.
Ele
quem primeiro me abriu a porta de Bispo do Rosário. Aquela cela de seus mantos.
Os panos do budismo. Goles de sabor saquê. A filosofia guia dos terreiros. Nos
Campos de Augusto. Pôs para eu escutar a mosca de Walter Franco. Não me esqueço:
de a gente na casa do guitarreiro Luis Vagner à Rua Simpatia. Um passeio afro sulrealista
que fizemos em Atibaia, cidade chão constelação do nosso mestre André Carneiro.
À vera, feito Eunice Arruda, o poeta desde sempre me plantou uns haicais
bonsais. Compusemos até juntos umas ladainhas. São testemunhas Estela Luz,
Fabiana Cozza, Sourak, Manoel de Barros, Adrienne Myrtes, Valter Hugo Mãe.
Xangô, Ossanhe.
O
tempo é o melhor livro. Hoje ele, nuvem, me vem com este belíssimo Satori na
Laje. Eu arrepio. Porque preciso. Esse clássico luminoso. Porque tem aí uma
natureza expandida. Uma mente aguçada. E quieta. Na calmaria de sua poesia
liberta-se o pão de cada dia. Perversos não são os versos, mas o que fica da linguagem
à margem. Ela que nos alerta das milhares de luzes que ofuscam tanta miséria.
Coirmão, este meu irmão, de Ricardo Aleixo, Nelson Maca, Geni Guimarães. Bashô,
Buson. Tão mestre quanto quântico. Cruz que carrega lajeando as estrelas. Na
companhia de Tom Zé e Waits. Das capivaras às beiras da Cidade Universitária.
Salve e salve!
Satori
é um volume de belezas, delicadezas acesas. Um tanto de tanta alegria esse
nosso reencontro aqui, nessas linhas. Em um mundo que cada vez mais necessita
de samba e de mar. De uma ternura para poder voltar a sonhar. É possível. Não é
pouca coisa o que a gente conseguiu cultivar.
Em
bom portunhol, “Gracias, muy querido amico”.
O
resto deixemos a floresta, que nos resta ao redor de nós, cantar.
MARCELINO FREIRE
