29 março 2010

A língua portuguesa é o nosso butim

Ainda estou sob o efeito encantatório dos diálogos, falas e encontros da Conferência Internacional sobre o Futuro da Língua Portuguesa no Sistema Mundial, que aconteceu em Brasília neste último fim de semana.

Algumas frases ainda reverberam em minha mente:

“Com as novas mudanças no mercado editorial, o leitor passou a ser o centro e não mais o autor.”
“O autor se transformou em uma marca nos tempos atuais.”
“Em Portugal há 10 milhões de habitantes e para o mercado internacional ele não constitui uma massa crítica capaz de se afirmar no panorama mundial.” (Maria do Rosário Pedreira)
“Qual o lugar da literatura no mundo de mercado?” (Pergunta da platéia)
“A língua portuguesa é um castelhano sem ossos.” (Cervantes)
“Ninguém canta em esperanto.” (Mário Lúcio)
“A língua portuguesa é um troféu de guerra.” (Luandino Vieira)
“A libertação pela conquista da palavra.”
“As línguas são tecidos por onde passam as diferenças.”

Todas, frases contundentes, citadas pelos palestrantes. Autoria dos próprios ou apropriações.
Mas, cá entre nós, o ponto alto do encontro foi a fala que reproduzo abaixo do poeta, compositor e músico de Cabo Verde, Mário Lúcio. Confiram.





Eu nasci do encontro entre duas línguas, como, alías, acontece com toda a gente cuja cultura tem a tradição do beijo na boca; e cresci entre duas línguas também, o crioulo e o português. O crioulo é a minha língua materna e paterna e o português é a minha língua fraterna e eterna. É em português que eu aprendi a escrever, essa forma de eternizar o efêmero na palavra, embora tenha sido em crioulo que aprendi a falar, essa outra forma de o eterno ser efêmero na palavra. Quando penso, canto e choro, faço-os em crioulo. Quando o que eu canto, penso e choro é escrito, escrevo-o em português, à excepção da música. Desse modo, é indissociável a minha língua materna da fraterna. Não consigo conceber nada, nem conceber-me, sem a língua crioula, e não consigo conceber a língua crioula sem o português. Essa vivência faz com que eu não partilhe a existência de uma língua portuguesa tal como ela é tratada hoje no espaço lusófono, isto é, como uma antiga propriedade que nós cultivamos como meros arrendatários. Devo dizer que essa não é uma posição oficial de nenhum país em particular, mas é uma característica do pensamento institucional. Particularmente, acho feliz a idéia de incluir o processo criativo na discussão sobre o futuro da língua portuguesa, porque é no campo criativo que nós compreendemos que somos nós que fazemos a língua e não o contrário. Embora, do modo como a língua é encarada hoje, parece que é ela que faz os povos e os países, e não o inverso. O exemplo está dado aqui nesta Conferência Mundial. Duvido que as nossas divagações, as dos músicos, poetas, escritores, tradutores, jornalistas, editores, cineastas, tenham alguma repercussão nas resoluções oficiais.

O meu processo criativo, falando como ilhéu e crioulo, é um caso particular no universo da língua portuguesa. Assim como todos os outros casos são particulares, seja em Angola, no Brasil, na Guiné, em Moçambique, em São Tomé ou em Timor. Só há um denominador comum entre nós e que, curiosamente, não é a língua portuguesa em si, mas o que cada um de nós faz dela. Falo da língua viva. A minha experiência faz-me aqui falar não do processo criativo na sua relação com a língua, isto é, não tomar a língua unicamente na sua dimensão estética ou semiótica, quando ela conflui com a criação, mas também, e principalmente, a língua portuguesa na sua terceira dimensão, que é o da sua crioulização. Esse fenômeno não é reconhecido, sabemo-lo. O que não sabemos, ou não queremos saber, é que o quid da questão reside exactamente aqui.

A língua portuguesa é uma língua crioula. E essa realidade é tão evidente como dizer que a lusofonia ultrapassa a língua. E que a língua portuguesa hoje ultrapassa o politicamente e o gramaticalmente correctos. A Lusofonia soa bem, porque engloba um universo de cerca de cento e dez línguas, que vai do tétum ao Kimbundo, do angolar ao português. Há estudos actuais que mostram a fragilidade da sigla CPLP, porquanto nos países de língua portuguesa, o português é, muitas vezes, a segunda ou a terceira língua, falada apenas por uma minoria. Mas os mesmos estudos também rejeitam a idéia da CPLP poder ser uma Comunidade de Povos, pois, dizem, seria ainda pior incluir os bantus, os congos e os outros, como povos de língua portuguesa. Ora, nessa lógica, dizer povo espanhol, francês, alemão ou suíço é igualmente uma violência. Eu acho que no centro da CPLP deviam estar os povos e não os países. E que, nesse aspecto, o Senegal, pelo Casamance, o Benin, pelo Porto Novo, o Marrocos, por Arzila, o Curaçao pelo papiamento, a Guiné Equatorial, pelo ano Bom, etc., devem fazer parte da Lusofonia, ainda que não da CPLP, enquanto comunidade de países. E eis porque tenho proposto a criação de uma Fundação para a Lusofonia, uma organização global para a comunhão de povos com heranças portuguesas, e que se ocuparia exclusivamente dos aspectos culturais da Lusofonia, trabalhando em complementaridade da CPLP e em comunhão com ela.

Quanto à língua portuguesa, ela continua a ser ensinada, corrigida e tratada com os mesmos métodos, formas e estratégias de quando eu estudava pela gramática de José Maria Relvas. A minha constatação é que a Língua Portuguesa já não é a língua clássica que se impôs, e que ainda se quer defender, (e talvez por isso seja tão difícil defendê-la tal e qual, porque aquela língua já não existe). A língua portuguesa é hoje uma língua barroca, depois de séculos de crioulização, que vai desde o encontro do Padre António Vieira com os índios, de Guimarães Rosa com o Sertão, Mia Couto com as quarenta e uma línguas moçambicanas, Luandino Vieira, António Jacinto e Pepetela com os tambores e as machambas, a Arménio Vieira no seu convívio com o triste poeta Fernando, e o zarolho Luis Vaz. A língua portuguesa é hoje tudo isso, mais as letras das mornas de Cabo Verde, as canções de Adoniran Barbosa, o bilingüismo e a diglossia expressa e intencionada dos escritores da minha geração em Portugal, Brasil, Angola, Santomé, Guiné, Moçambique, Timor, e por aí fora.

A língua portuguesa é hoje uma língua crioula, como o é o espanhol de Julio Cortazar e Carpentier, como o inglês de James Joyce, como o pidgin da Jamaica, como o francês de Ousmane Sembén e de Edouard Glissant. A diferença é que nós da fala portuguesa ainda não aceitamos isso, enquanto que os outros já tratam do tema há várias décadas. De tal modo que a Bélgica e a Suíça abandonaram a idéia de um Acordo Ortográfico alemão, o Chile, depois de 140 anos, já não acha prioritária essa questão, e a língua francesa, do Canadá a Madagascar, viu o último acordo ortográfico em 1830. Outras preocupações afectam a língua no mundo em que vivemos. E a nossa línguíssima portuguesa também devia estar na vanguarda. E quando digo que o português é uma língua crioula, não é uma língua crioula pelo que é intrínseco ao crioulo, porque não há nada intrínseco ao crioulo, mas como língua em permanente mutação, fenómeno que permeia os encontros de culturas, porque é isso a crioulização. A meu ver, a língua portuguesa deve ser tratada como uma das línguas da Lusofonia, a única na qual quase todos nos entendemos. E foi nessa qualidade, como uma das raras línguas comuns a todos nós, que ela se tornou, com o uso, numa língua crioula. Portanto, agora não venhamos domesticar essa bravura. Convém dizer que se o português é falado em cinco países africanos, destes, três se entendem numa mesma língua, o crioulo, designadamente, Cabo Verde, Santomé e Guiné Bissau. E é dentro desse espaço que a língua portuguesa deve ser trabalhada, difundida, partilhada, corrigida, mordida e saboreada como a língua na língua. Pois, é nesse espaço, que já é dela, que ela tem futuro e que, entretanto, corre perigo.

Não existe melhor modo de divulgar uma língua que através da música. Pelo menos, mais da metade das pessoas que tenho encontrado pelo mundo dizem que se interessaram pelo português depois de terem escutado Chico Buarque, Tom Jobim, João Gilberto, Amália Rodrigues, Gilberto Gil, Caetano, Bethânia. Mas, há um fenômeno novo: Hoje, muita gente chega ao português por causa da Cesária Évora. Entretanto, assistimos impávidos a um domínio anglo-saxónico, por um lado, e a uma conquista crescente e planificada da francofonia, por outro, sem que nós tenhamos feito alguma coisa para que a lusofonia tenha um mercado global na área da música e das artes. Eu acho que o Esperanto é desinteressante justamente porque ninguém canta em Esperanto. O mesmo já não acontece com o latim, que, embora se diga que é uma língua morta, tem dado e continua a dar palavras a divinos cânticos.

É de toda a conveniência, portanto, que a Lusofonia seja global e não redutora. E global, talvez não no sentido territorial, mas na diversidade.

É urgente a criação de uma Agência da Lusofonia para a Cultura, para a promoção e exportação de bens culturais, e para o intercâmbio. Exemplos: as feiras do livro, e os centros culturais. Propostas: Consolidação do Instituto Camões e demais fundações, da Fundação Palmares, etc. Mas, será que alguém está interessado em dar independência à CPLP? A língua está sendo politizada. Eu não devia dizer isso. Mas, digo. E se não é verdade, então que a palavra seja dada aos eternos e aos efêmeros. Precisamos de uma política para a língua, e não de uma língua para a política.

O Acordo Ortográfico é um grande passo para a CPLP, mas um passo atrás para a língua. Já está aprovado e não há volta atrás, portanto, não vamos chorar sobre o grafema derramado, mas convém ficarmos cientes de que estamos a usar um velho método de estandardização, que deveria ser abandonado em nome da diversidade. Quando todo o mundo esperava uma simplificação profunda e moderna, que facilite o acesso à língua, e facilite o processo criativo e facilite a vida às crianças que queiram escrever em português, o Acordo Ortográfico tratou a forma e deixou o fundo como estava. Resolve a questão do hífen, dos ditongos e da diérese, enquanto xícara, chácara, esboço, fosso, mães e pães, cidadãos, êxodo, êxito, cães e espiões nos confundem. Pois, não sabemos se vão com s, x, ç, ch, ou z. Portugal debateu-se sozinho durante séculos com essa questão. Hoje, a língua encontra-se ainda encravada entre a solução etimológica e a fonológica, o que é uma eterna desvantagem para quem não tem a língua portuguesa como língua materna, e que só percebe que o h é mudo aos seis anos de idade. Se já é acordo comum que isto deve continuar como está, uma língua híbrida é uma opção que eu aplaudo. Mas, então, é necessário o tratamento da língua a outro nível, e que, definitivamente, o facto de o português ser uma língua crioula seja aceite.

Usar métodos vetustos pode ser contraproducente. Quem escreve não escreve mal o português, nunca. E quem escreve mal, não há Acordo Ortográfico que o salve. O que acontece agora é que quem já escrevia razoavelmente bem, agora corre o risco de escrever mal, e quem já escrevia mal ficou pior. O que quero dizer é que temos a oportunidade de fazer algo histórico para a língua, e devemos fazê-lo. Para isso, é necessário que as recomendações surjam de dos utilizadores para os técnicos e destes para os políticos, e não dos políticos para os técnicos,e deste para os utilizadores. Eis porque proponho com urgência, e para o bem do futuro da língua portuguesa que se crie A Academia da Letras da Lusofonia, e que recolha subsídios de Goa até o Canadá. Se alguém está interessado verdadeiramente no futuro da língua portuguesa, que dê um sinal, que atire a primeira sílaba. E essa instituição é que cuidará dos destinos da língua de forma independente e por mérito.

Todas as línguas já foram línguas crioulas. O português, por fim, chegou à sagração desse processo. Nesse caso, o Acordo Ortográfico é uma boa testemunha. Pois, se se procurou acordos, é porque havia desacordos. Como e quando é que esses desacordos nasceram? Eis uma outra visão das coisas. Será que os desacordos não poderiam ser intregados como parte da língua, como alternativa, como o outro modo de?... como subsídios, como possibilidades. Eliminar o erro pela aceitação do erro. A língua dever ser libertada das estruturas administrativas e devolvida à boca e à pena, e ao seu lugar de conforto e de cultivo.

É preciso libertar a língua de um antigo conceito de língua de que somos os últimos a padecer.
A experiência de cada um pode ser a riqueza de todos. A minha é a de uma pessoa cuja língua materna não é a língua escrita de sua eleição. É dos poucos casos na História em que a língua que não é materna é anterior à língua materna. O português no Arquipélago de Cabo Verde é anterior ao crioulo. Por isso, o português aparece no nosso processo criativo muitas vezes apenas para nos dar o título. Contudo, de repente, estamos a pensar em crioulo e a escrever em português. Ou, de repente, estamos a pensar em português e a escrever em português. E não se trata nunca de uma tradução, nem de uma transcrição. É algo como uma sombra entre duas árvores. Só sabemos que se não pensarmos em crioulo o nosso português não terá força, nem genuinidade. E quando escrevemos em português, no caso em que escrevemos em português, o nosso pensamento em crioulo ganha a força da surpresa e da estética, e a repercussão que a língua portuguesa tem. É exactamente isso que faz a minha literatura em português ser diferente de qualquer outra escrita em português. A língua portuguesa já nasce em mim como figura de estilo. E, para muitos dos escritores africanos, escrever em português é literatura em si, desde que ela seja tratada como língua crioula, como língua nova esculpida por muitas línguas. Nada disso é explicável, na verdade. Só escrevendo, só lendo.

Resumo: Fiz três propostas, e, se há alguém aqui que tem acesso aonde as propostas costumam ser ouvidas que as levem, por favor: A Criação da Fundação para a Lusofonia, a Criação da Academia de Letras da Lusofonia; A Criação de uma Agência para a difusão das Artes.

Obrigado
Mário Lúcio Sousa

http://www.mariolucio.com/
www.myspace.com/marioluciosousa

23 março 2010

O futuro da língua e a Internet


[Meu filho, Tom Mitsuo, consulta seus emails]

Não há dúvidas de que vivenciamos um momento único. Para o bem e para o mal. Novas necessidades, novas atitudes e novos fazeres geram novos conceitos, novas palavras, novas relações com a língua falada e escrita e, no limite, devem mudar nossa maneira de encarar o mundo e a vida.

O filósofo Pierre Lévy cunhou a palavra-conceito cibercultura que já contaminou nossa maneira de pensar, falar, criar e de nos relacionar. No centro deste conceito está, a meu ver, a não linearidade proposta pelos hipertextos, a comunicação flexível e de mão dupla onde não há mais uma hierarquização visível do produtor de sentidos e nem um topos delimitado.

Transitamos da galáxia de Gutemberg para a galáxia da Internet, com todos os seus agregados e desdobramentos possíveis. E a lingua já está em contaminação. O futuro da língua portuguesa depende, então, de uma presença mais concreta e consciente neste universo da tecnologia da informação.

Até o chamado “letramento”, considerado como um conjunto de práticas sociais que usam a escrita, enquanto sistema simbólico e enquanto tecnologia, está se readequando e, não há dúvidas, com consequências para a sociedade e para a língua que irmana tal sociedade.

Não há como fechar os olhos ou simplesmente dizer que se escreve mal e rapidamente na Internet. Que o inglês está contaminando a escrita utilizada na web. Que se come a grafia das palavras entre os mais jovens, etc. A preguiça e o conservadorismo têm que ser deixados de lado.

Nunca se escreveu e se leu tanto quanto nestas últimas décadas. Tantos emails trocados. Tantos blogues criados e abandonados e mais tantos sendo criados neste exato instante. Internet mais acessível. Computadores sendo vendidos a prazo pelas Casas Bahia. E, me parece, que nunca se produziu tantos textos literários, ou pretensamente literários. Ou, pelo menos, nunca se tornou tão visível a produção dos mesmos.

Não é necessário ser um especialista em linguística, nem concordar com as ideias do linguista americano Steven Fischer, para perceber que a língua é viva e dinâmica e se transforma com ou sem o nosso olhar diacrônico.

Segundo Fischer, em mais ou menos 300 anos, nosso querido português brasileiro se transformará em uma espécie de portunhol. Talvez o “portunhol selvagem” já apregoado e bem utilizado pelo nosso “poeta de fronteiras”, Douglas Diegues.

Mas o futuro é incerto. Certo, apenas, é o presente. E o que fazemos dele. Há pouco tempo, ninguém apostaria na influência mundial da Internet. E mesmo atualmente, com a mundialização, ou globalização, quem preveria a emergência de regionalismos e nacionalismos incentivados pela própria Internet?

Temos - nós escritores, editores, professores e amantes da língua – que correr. No mês passado, a gigante editorial americana Simon & Schuster ditou novas regras para seus escritores. E quais são elas? Abrir um blogue. Criar uma página no Facebook. Gerar conteúdo em redes sociais literárias. Enfim, interagir. Sair dos escritórios empoeirados ou da redoma criativa.

A língua exige o mesmo de nós. Que interfiramos no processo. Que escrevamos bem em nossos emails. Que atualizemos constantemente nossos sites e blogues e chats e hot-sites e demais sítios que pudermos. Que escrevamos muitos caracteres, sim. Nada de se curvar à rapidez, às poucas palavras, ao pensamento de que o outro não lerá um texto mais denso. Usemos o Skype. Criemos Podcasts. Deixemos nossa voz reverberar no ciberespaço. Cravemos nossa bandeira lusófona lá.

E no sétimo dia, Deus observando sua criação regozijou-se. No oitavo, o Google chegou e apoderou-se de tudo.


[Texto base de minha participação na Conferência Internacional sobre o Futuro da Língua Portuguesa no Sistema Mundial, dias 27 e 28/03, em Brasília]

10 março 2010

caravana solitária


duas flores desiguais: o amor e o desamor. entre a pétala e a sépala floresce um cosmos. do nascimento à morte o mistério jaz. de um limite ao outro o extremo se perfaz. há gente que mata como quem vive. há outros que imitam um serial killer.

de tudo sobra quase nada. gota de orvalho na manhã do Saara.

os cães já não me seguem. os lugares todos me desertam. vivo pisando no chão dos nefelibatas. toda a vida é um acontecimento sinistro. o segredo da noite recolhe meus cacos. uma flor oferece seu pistilo. eu sigo acariciando meu destino.

06 março 2010

Florilégio

duas flores desiguais:
o amor e o desamor.

entre a pétala
— palavras que machucam,
ações que destroem —
e a sépala floresce
um cosmos.

flor, diz-se que é o órgão
de reprodução sexuada
das plantas superiores.

dor, pressente-se a função
mais desenvolvida
dos seres inferiores.

flores podem ser solitárias
feito poetas em florilégios
ou pertencer a grupos
a gerações não florescentes.

distingue-se uma tulipa
de um homem desacostumado
a humanidades
observando se seu pólen
é levado pelos insetos
ou produzido por eles.

uma flor oferece seu pistilo
um homem destila seus estigmas.

a maioria das flores produz
néctar do qual insetos se alimentam
a maioria dos homens reduz
a fel as esperanças dos seres que imantam.

02 março 2010

Os caminhos da poesia: como chegar efetivamente ao leitor?


[Karla Melo (Calibán), Antonio Cicero, Márcio-André (Confraria), André Vallias e Patrícia (Calibán)]

A questão acima foi o mote para o diálogo em torno do lançamento na Livraria Travessa. O texto enviado pelo Affonso Romano de Sant’Anna, e lido por mim, foi uma instigante isca mordida por quase todos os presentes, o que tornou o ausente Affonso mais onipresente do que ele poderia imaginar. Ele foi, inclusive, chamado “jocosamente” de Santo Romano pelo brilhante e hilário Tavinho Paes – que, depois de responder a cada item levantado por Affonso, me pediu uma cópia do texto.

Aos poucos irei me lembrando dos comentários feitos por cada um dos poetas convidados. No momento, basta dizer que o único que trouxe um texto pronto e, portanto, não entrou no mérito das questões levantadas pelo Affonso foi o mais que lúcido poeta André Vallias.

André leu o texto abaixo e terminou recitando sua resposta/poema presente no livro, que por sinal é um show de síntese, informação e erudição. Vale conferir.


***

"É um prazer poder estar aqui, entre poetas ilustres, numa tradicional livraria carioca, para o lançamento de um livro que nasceu de uma bem-sucedida ação na Internet. Agradeço a Edson Cruz, idealizador da ação e do livro, às editoras Confraria do Vento e Calibán pelo convite.

Devo confessar, todavia, que recebi com ceticismo a idéia do Edson de passar para as páginas de papel a iniciativa que se realizava com tanto sucesso em seu blog Sambaquis.

Quando ele, entusiasmado com a variedade e qualidade das respostas que estava recebendo para o questionário que enviara aos poetas, perguntou-me sobre o que achava do projeto de se fazer um livro com o conteúdo, desaconselhei categoricamente e sugeri que fizesse um site, com uma estrutura de banco-de-dados mais eficiente do que a de um blog comum, que facilitasse ao internauta a visualização dos poetas, que não o limitasse em quantidade de páginas, etc.

Vícios do meu ofício de desenhar sites. Idiossincrasias de um poeta cuja primeira publicação não se deu através de um livro, mas por meio de uma exposição, não muito longe daqui, por sinal, na Galeria Macunaíma/FUNARTE, que pela primeira vez abria espaço para a chamada “poesia visual”.

Constato agora que estava errado. Dificilmente Edson alcançaria repercussão igual àquela que está atingindo com o lançamento deste livro, se tivesse dado ouvidos a este desastrado conselheiro digital. Um claro e irrefutável atestado de que o livro, apesar de morto, continua muito vivo!

Mas me pediram para falar sobre “Os caminhos da poesia: como chegar efetivamente ao leitor?”

Não posso ver ou ouvir a palavra “caminho” sem que não me venha à lembrança os versos do admirável poeta espanhol Antonio Machado. Alguns de seus “Proverbios y Cantares”, do livro “Campos de Castilla”, reunindo poemas escritos entre 1907 e 1917, contêm algumas das mais belas e concisas reflexões poéticas sobre o tema. Tomo a liberdade de ler dois dos 53 que compõe este primeiro ciclo de provérbios e cantares: o de número 29, o mais conhecido deles, e o de número 44:

XXIX

Caminante, son tus huellas
el camino, y nada más;
caminante, no hay camino:
se hace camino al andar.
Al andar se hace camino,
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.
Caminante, no hay camino,
sino estelas en la mar. .

XLIV

Todo pasa y todo queda;
pero lo nuestro es pasar,
pasar haciendo caminos,
caminos sobre la mar.

Incrível a simplicidade, a força, a profundidade desses poemas. E, no entanto, por mais admiráveis que os ache, assusta-me a inexorabilidade de suas imagens.

Quando reuni, em 1997, uma primeira coletânea de poemas na Internet – ou melhor dizendo, quando criei, há 13 anos, um poema-site que coligia de forma não-linear adaptações para web de poemas compostos desde 1988 no computador, e alguns concebidos originalmente para os recursos interativos e multimídia então disponíveis na Internet, dei-lhe o título “A leer – Antilogia Laboríntica”.

A obra foi inaugurada numa exposição de “Arte e Tecnologia” em São Paulo. Entre os textos que distribuí pelas telas de navegação, para orientar/instigar o percurso por demais enigmático para os padrões usuais, o seguinte, que remete à inusitada homografia entre as palavras de dois idiomas – “leer” (infinitivo do verbo “ler” em espanhol) e o adjetivo alemão “leer” (= vazio) – e termina com uma citação de Otavio Paz, extraída de seu ensaio “El Mono Gramático”:

para se ler ou talvez
leer (de laere, lari)
no alemão = vazio:
etimologicamente, aquilo
que de um campo ceifado
pode ser ainda recolhido
(aufgelesen): de lesen
= catar, separar,
ler... ou talvez
“caminar: leer un trozo
de terreno, descifrar
un pedazo de mundo.
la lectura considerada
como un camino hacia...”

Numa outra tela, os versos do poeta judeu-romeno de língua alemã Paul Celan:

lies nicht mehr – schau! não leias mais – vê!
schau nicht mehr – geh! não vejas mais – vá!

Mais adiante, uma referência à homofonia entre a expressão “a leer” (para se ler) com o verbo francês “aller” (= ir). (Mais adiante ou anteriormente, pois como a navegação do site ocorre de modo “não-linear”, não há como determinar de antemão o que vem antes ou depois). O termo “não-linear”, aliás, talvez indusa a um equívoco: de que se trate de algo que prescinda ou renuncie ao “linear”, quando o que se dá é, mais precisamente, uma pluralidade de trajetos.

Talvez devessemos falar de pluri- ou multi-linearidade.

Há uma palavra que define melhor o campo de múltiplos trajetos, de pluri-linearidade de uma obra dita “não-linear”: “circuito” que vem do latim “circuire”, andar em círculos, uma palavra que foi apropriada pela engenharia elétrica e de computação, embora a usemos sem desconforto na expressão “circuito cultural”.

É curioso como a civilização ocidental cultivou um preconceito em relação à circularidade: fala-se em “círculo vicioso” sem jamais se mencionar a perversidade de uma única reta; perdidos numa floresta, que sensação mais dramática do que constatarmos que estamos andando em círculos?; sem falar no implacável “circulando, circulando” que uma autoridade policial costuma dirigir aos desocupados, com aquela fatalista certeza de que todos voltarão para importunar a ordem pública…

Suspeito que isso decorra da extrema aceleração do processo de leitura propiciada pela disseminação do alfabeto fonético – essa impressionante criação de mercadores fenícios de 3 mil anos atrás –, alavancada pelo aprimoramento da tecnologia da impressão – os tipos móveis de Gutenberg, há 570 anos –, etc. etc.

Nos tornamos leitores compulsivos e silenciosos, obcecados por chegar ao fim da frase, ao fim do parágrafo, ao fim da página, ao fim do capítulo, ao fim do livro.

Acredito que a poesia, aquém e além de qualquer procedimento tecnológico, aquém e além de qualquer literatura – porque os circunda e permeia – seja uma eterna resistente ao inexorável “sempre em frente” da linha reta…

Nessa altura, vocês já devem ter percebido que dei voltas e mais voltas sem chegar ao tema deste debate. Assim é:

“Caminante, no hay camino:
se hace camino al andar.”

Passo agora à leitura de minha contribuição ao livro, ou melhor, à resposta que dei à primeira pergunta de Edson Cruz: aquela que deu título ao livro cujo lançamento motivou este prazeiroso encontro."

01 março 2010

Rio sob chuva


[Victor Paes, Tavinho Paes, Antonio Cicero, André Vallias, Márcio-André, Luis Serguilha, Karla Melo e Edson Cruz]

Na tarde de quinta, dia 25, fui para o aeroporto de Congonhas com antecedência mineira tomar o voo que me levaria ao Rio de Janeiro. Às 17h30, aconteceria o lançamento, na Livraria Travessa da rua Ouvidor, do livro “O que é poesia?”.

Confesso que não estava muito animado, pois, ainda em São Paulo soube que o aeroporto Santos Dumont estava fechado e alguns voos haviam sido redirecionados para o Galeão. Se isso acontecesse, não conseguiria chegar a tempo do evento. Além do mais, o horário me soava meio esquisito (impensável para um lançamento aqui em São Paulo) e, para complicar, havia a chuva (dizem que os cariocas não saem de casa quando está chovendo).

Por sorte, o aeroporto foi liberado e, quase no horário previsto, o avião taxiou sobre a cidade dita maravilhosa sob nuvens impedindo-me de apreciar o que dizem ser uma das mais belas paisagens aéreas do mundo. Paisagem que preciso contemplar antes de 2012, pois a julgar pelo filme catástrofe que está rolando por aí, ou pelas previsões do calendário da vez, o Maia, ou pelas observações de James Lovelock em seu novo livro, parece que não vai durar muito.

A trinca de confrades do vento, Márcio-André, Victor Paes e Ronaldo Ferrito estavam umidamente me aguardando. Já foram reforçando meu temor e predisposição sobre os cariocas. Chuva não combina com carioca nas ruas.

A divulgação do evento foi mais do que “profissa” e generosa. Deu no jornal, no rádio. Saiu resenha. Um belo contraste com o desprezo gelado da mídia paulistana para o lançamento feito na Casa das Rosas. Afinal, tanto como em São Paulo, no Rio conseguiríamos reunir uma turma de poetas bacanas de várias gerações e tendências: Affonso Romano de Sant’Anna, Antonio Cícero, André Vallias, Márcio-André, Victor Paes, Tavinho Paes e o português Luis Serguilha.

O poeta Affonso Romano não pode comparecer pois teve compromissos em Nova York. Escapou da chuva, mas topou com muita neve. Mandou um pequeno texto provocador que li na abertura do evento e que norteou muitas das questões e comentários na Livraria da Travessa. Confiram.


O QUE (NÃO) É POESIA
Affonso Romano de Sant’Anna

O poeta Edson Cruz organizou o livro de depoimentos: O QUE É POESIA. É um livro generoso. Ouviu 46 poetas brasileiros e alguns estrangeiros. O volume foi lançado primeiro na Casa das Rosas (SP) com direito a debates, poemas, música. Foi lançado esta semana na Livraria Travessa (Rio). Eu deveria estar lá, mas tive que ir a NY. Pensei em pedir que lessem apenas um poema meu que trata do tema. Depois pensei: poderia fazer um curto depoimento sobre certas questões que marcam a poesia brasileira hoje. Afinal, há mais de 50 anos que estou na estrada e vi coisas de que nem Deus mais dúvida.

Naquele livro, minha definição de poesia é, talvez, a menor de todas: " Poesia é o espanto transverberado". Na Casa das Rosas sugeri que se fizesse outro volume igual/contrário/complementar: O QUE (NÃO) É POESIA. Aprende-se também virando as questões pelo avesso.

Então, acrescento agora algumas questões que me parecem atuais. Cada uma delas merecia o capítulo de um livro e horas de discussão.

1. Quanto mais a poesia se distanciou do público mais começou a conversar (solipsisticamente) consigo mesma. E o contrário é verdadeiro: mais os poetas se fecharam em seus solilóquios de "autistas", mais se afastaram do público.

2. As vanguardas, em geral, praticaram a "estratégia da exclusão": ou seja, a história da poesia contém eu e três amigos, o resto é lixo. A "estratégia de exclusão" é uma política de poder e com ela a poesia brasileira se empobreceu. É posição dos que acham que eliminando o outro vai sobrar espaço para si. É tão danosa quanto uma estratégia de inclusão indiscriminada.

3. A aproximação entre música popular e poesia erudita é um fenômeno que mereceu teses e livros (meu inclusive). Mas nem toda letra de música é poesia. E acresce que se praticou uma poesia contaminada pela "letra de música" que, sem música, é precária.

4. Considerando uma certa produção em voga observa-se que se perdeu um "métier" do tratamento do verso enquanto unidade rítmica e formal. A indiferenciação entre prosa e poesia é um equívoco.

5. O poema curto, engraçado, tipo jogo de palavras, pode ser uma praga. Mário de Andrade lamentava "o poema piada feito para dar risada". Não é que não se pode/deve fazer poema com humor, mas transformar isto de novo em "moda" é um renovado equívoco.

6. No Brasil criou-se a falácia que o poeta tem que saber várias línguas e ser tradutor de outros poetas. Alguns poetas imigraram para a poesia alheia abandonando a sua possível poesia.

7. Poesia brasileira não é só Drummond e Cabral, que, aliás, se hostilizavam. Cabral dizia que Drummond "desbocou" depois de "Brejo das Almas". O que é uma tolice.

8. Há que reativar a obra de poetas esquecidos, detonados na guerra entre os grupos e gerações. É necessário reinventar a crítica de poesia no Brasil e prestar mais atenção em poetas fora do eixo Rio/São Paulo.

9. Enfim, somos meia dúzia de gatos pingados. Por que ficar se estraçalhando em praça pública? Avareza (formal) não conduz necessariamente à poesia. Às vezes, ela surge do seu oposto, da generosidade.

09 fevereiro 2010

Rosácea de Proust


Na língua e no pensamento gregos havia duas formas de se encarar e vivenciar o tempo. O que eles chamavam de Chronos, gerou a palavra cronológico, e carregava o sentido de passagem do tempo, sequencial e quantitativo. O outro termo era Kairos, o tempo qualitativo, aquele que não pode ser medido e que nos faz sentir um século passar em um instante.

Qualquer narrativa, em qualquer arte, tem que trabalhar com a questão do tempo e, no limite, criar o seu próprio tempo. Há aquelas que primam pelo uso essencial do tempo, como a música, o cinema, os quadrinhos e a literatura.

Um romance, por exemplo, construído de forma linear, com começo, meio e fim e os fatos e peripécias desenvolvendo-se um após outro, flerta com Chronos em sua tessitura. Mas há aqueles que instauram Kairos em seu tecido ficcional e na fruição que nos possibilitam.

O escritor francês, Marcel Proust, foi um mestre do tempo na perspectiva revelada pelo conceito grego de Kairos. É o escritor que, talvez, melhor tenha conseguido retratar a passagem do tempo vivido e rememorado no romance moderno.

Sua monumental obra, Em Busca do tempo Perdido, foi elaborada em sete romances que se entrelaçam, formando um todo harmônico e musical feito uma sinfonia. A metáfora da música é mais do que adequada quando falamos em tecer o tempo com o grau de refinamento e destreza que Proust realizou.

A sinfonia de Proust foi composta em sete movimentos: No Caminho de Swann, A Sombra das Raparigas em Flor, O Caminho de Guermantes, Sodoma e Gomorra, A Prisioneira; A Fugitiva e O Tempo Redescoberto.

Ficamos sabendo, lendo suas anotações, que o último capítulo de O Tempo Redescoberto foi escrito imediatamente após o primeiro capítulo de No Caminho de Swann o que, por si só, demonstra que o romance não foi concebido linearmente, pois a matéria central entre os dois foi escrita depois.

Proust buscou representar por intermédio do narrador, indiferente à cronologia e à organização lógica, as suas próprias questões existenciais. O narrador, que é o personagem principal, coloca o problema de uma vocação que se debate até tomar consciência de si mesma no último livro do romance.

Mas a forma como ele fez isso é que ainda faz toda a diferença. E sabemos que em arte a forma conta mais do que o conteúdo. Em Proust a narrativa é vivenciada no presente e o tempo que nos mostra não é apenas retrospectivo (foi um dos primeiros a usar a técnica de flashbacks na literatura), mas também prospectivo.

O tempo em Proust está ligado, intimamente, com a memória e, mais especificamente, com a memória involuntária, que é o afloramento à consciência de determinada lembrança a partir de uma sensação análoga à outra experimentada anteriormente.


Por exemplo, quando o narrador ouve uma sonata, no momento em que sua amada já o desprezava, sente voltar o tempo em que era amado por ela. Não só o tempo, mas as sensações prazerosas daqueles instantes já perdidos.


Ou quando saboreia uma madeleine (um biscoito fino) molhada no chá e sente uma profunda alegria ao relembrar da cidadezinha onde passava férias e de toda a infância, da atmosfera de todo o período de seu passado aflorado na consciência, neste exato instante, pelo gosto do biscoito em sua boca.


A questão do tempo, então, não é apenas uma questão de se estabelecer a proporção entre a importância do evento e o tempo destinado ao seu tratamento. No romance, a duração percebida está relacionada à sintaxe. Os voos estilísticos e as digressões retardam, por exemplo, o fluxo da narrativa. E neste aspecto, o romance de Proust é um verdadeiro marco narrativo. Proust cria e recria o tempo com maestria, gerando um ritmo extremamente lento, que parece dissolver a ação.


Sua narrativa envolve uma temporalidade tríplice: o tempo da história, o tempo do discurso e o tempo de produção do discurso.

O tempo da história pode abranger uma vida toda. O tempo do discurso compreende o tempo necessário para se ler o romance. O tempo de produção do discurso é como esta história é contada no tempo, ou seja, esta vida toda pode ser contada em um dia, ou toda a infância aflorando a partir de um sabor rememorado.

O tempo buscado por Proust é aquele que não existe mais em nós, mas que continua a viver oculto em um sabor, uma fragrância, uma imagem, as torres de uma igreja. Tempo recuperado pelo conteúdo que emerge à consciência.

Muito se falou da relação da obra de Proust com as ideias e reflexões do filósofo Henri Bergson. Não se pode negar em Proust, a influência bergsoniana na apreensão do tempo como “duração” fora do encadeamento sucessivo dos fatos. Mas, não seria totalmente verdadeiro conceituar o romance proustiniano como uma adequação literária da filosofia de Henri Bergson, como muitos o fazem.

Ele conheceu a filosofia de Bergson mais tarde do que se imagina e negou categoricamente em entrevista a existência de uma relação direta entre a sua obra e as teorias do filósofo.

Mesmo no quesito memória, o denominador comum entre Bergson e Proust está na crítica de ambos às limitações da memória ligada à inteligência. Bergson considera que a totalidade do passado é conservada, desde o despertar da consciência. Para Proust, a memória aparece como um abismo, de onde só um pequeno número de lembranças é resgatado. Mas a julgar pelo caudal de sua obra, o que para ele é pequeno, em nós é quase afogamento.

Há quem identifique no estilo de escrita de Proust, cheio de idas e vindas, com avanços e recuos alternados e simétricos, frases e períodos longuíssimos, uma correspondência aos impulsos de uma respiração que luta para vencer a falta de ar, pelo fato dele ter sido asmático desde criança. Até já nomearam esse estilo de “rosácea de Proust”.

O fato é que, depois de Proust, a importância do enredo e as narrativas tradicionais com começo, meio e fim, foram abaladas irremediavelmente. O tempo é o senhor de tudo. Tambor de todos os ritmos. E ele aguarda que todos possam usufruir do biscoito fino, a madeleine, que Proust nos ofertou.


[Texto escrito e reelaborado com outro título para a edição nº 3 da baiana Revista Lícia]

24 janeiro 2010

Um disco raro: Clube da Esquina 2



Corria o ano de 1978. Um ano que também não terminou. Milton Nascimento arregimenta seu time de amigos e parceiros, organiza o lado musical e, com a produção de Ronaldo Bastos, presenteia-nos com mais um disco histórico: o Clube da Esquina 2. Diferentemente do trabalho coletivo realizado no Clube da Esquina, que podemos considerar como um projeto marginal e alternativo, feito em parceria com o jovem Lô Borges e a liberdade criativa de músicos e letristas amigos, o Clube 2 foi um álbum inteiramente idealizado e concebido por Milton. A EMI ODEON deu carta branca e o nosso Bituca fez o disco como bem quis. O resultado firmou de vez Milton e seus confrades talentosos no primeiro time do caudaloso rio da Música Popular Brasileira. A essa altura do campeonato o som nutrido e sintetizado por Milton e seus parceiros entre as montanhas maviosas de Minas tinha gerado afluentes que entraram de vez na corrente sanguínea da música mundial.

Nesse disco duplo, produção muito difícil de ser repetida nos dias bicudos do mercado fonográfico atual, um verdadeiro rosário de belas e marcantes canções, parcerias cristalizadas, novos talentos e grandes nomes da MPB se fizeram presentes — Chico Buarque de Hollanda, Elis Regina e Gonzaguinha, entre outros. Como esquecer de “Nascente” — uma das músicas mais tocadas do disco —, parceria de Flávio Venturini e Murilo Antunes, uma pequena pérola da música popular brasileira de todos os tempos? E o que falar da música “Cancion por la unidad de Latino América”, composição de Pablo Milanês adaptada por Chico, cantada por Milton e o próprio Chico Buarque no disco?

Vivíamos no país um momento de esperança pelo que ficou conhecido de “distensão lenta e gradual” de um regime que havia paralisado a todos e a tudo. Era o momento de, por um lado, fazer um balanço das vivências e ganhos até então e, por outro, abrir-se a novos caminhos que exigiam serem percorridos.

Milton chamou seus dois principais letristas, Fernando Brant e Márcio Borges, e os instruiu a contabilizar em cima de uma mesma melodia tudo o que eles haviam vivenciado desde o Clube da Esquina inaugural. O resultado é a música, com duas letras, “O que foi feito devera/O que foi feito de Vera”. O que havia sido feito de nós? O que havia sido feito do Brasil? O que havia sido feito de nossos sonhos de meninos? De certa forma o disco todo é uma resposta abrangente para essas perguntas. Uma resposta que apontava para a certeza de que “outros outubros virão, outras manhãs plenas de sol e de luz”.


[Texto para edição especial do site do Museu Clube da Esquina. Confira fotos e depoimentos sobre o disco em
http://www.museudapessoa.net/clube/expo_clube2/]

19 janeiro 2010

Os caminhos da poesia contemporânea brasileira: dificuldades e acertos


Diante da incrível quantidade de poetas que surgem a cada dia, com seus modos particulares de escrita, cada vez mais elaboradas e conscientes; da efervescência de grupos e coletivos literários espalhados pelo país; da feliz facilidade hoje em se veicular uma publicação, seja por meio eletrônico, seja por meio impresso; da liberdade de poder ser o seu próprio agente literário; e do número crescente de editoras que se voltam a esse que é o mais frágil dos itens de mercado, eis que se revelam outros desafios – antes ocultos ou adormecidos – para os quais não nos preparamos adequadamente. O momento do pós-orgia preconizado por Baudrillard e adiado pelos nefelibatos do pós-real – o pós-tudo glorificado ou criticado em seus extremos por meio milhão de especuladores –, descamba então na exigência de novos caminhos – ou bem mais que isso, de se enxergar passagens ao largo de todas as rotas. O que nos move não é mais a poesia para todos, isso parece ter se cumprido de maneira adequada: todos fazem poesia. O problema agora é compreender porque ninguém lê poesia. Atribuir o problema à qualidade das escolas, à insuficiência das políticas de leitura ou às tendências mercadológicas não contempla à questão, uma vez que independente disso tudo, nunca esteve se fazendo tanta poesia. Talvez não haja uma resposta, mas não porque faltem explicações ou quem a queira responder, mas simplesmente porque ainda não foi formulada a pergunta adequada.

O projeto hegemônico lançou no mundo uma maneira eficaz, mas não necessariamente correta ou durável, de propor uma pergunta válida. A solução que ele dá para tanto excesso, cava um abismo ainda mais profundo, pois, se nos encontramos em um tal buraco, ele é a pá com a qual o cavamos. É na fundação excessiva de disciplinas e especializações que nos perdemos tentando encontrar a nós mesmos. Os estudos culturais, por exemplo, dão conta das diferenças simplesmente assimilando-as ao projeto dominante. Neles, os valores antigos são transferidos para ambientes periféricos, travestindo o mesmo e o de sempre com uma aura de marginalidade, inovação e rebeldia. É sabido que somente a descentralização não é suficiente para tocar o excêntrico. Em oposição à isso, encontramos os conservadores a la Harold Bloom, que ficam montando peças vitorianas sobre grandes teatros em ruínas. De um modo ou de outro, em um mundo que parece ter só se esmerado no aparo das arestas, a tática mais eficaz para a contemplação das diferenças tem sido a de torná-las sistematicamente identitárias. Com isso a contemporaneidade acaba sendo uma potência que gera energia em direções opostas: o mesmo que prepara para uma sindicância de reivindicações nos joga cada vez mais num processo maquinal.

A verdade, é que temos visto um uso leviano dos conceitos de “identidade” e “diferença” – ora se defendendo um, ora outro, de acordo com as conveniências –, sem que se leve em conta o mais relevante e o que de fato sempre moveu os pensadores do real: a tensão entre ambos. Pois, se por um lado evidenciar as diferenças na literatura é essencial, por outro é preciso criar uma consciência comum da literatura, para que não terminemos nas microinstitucionalizações da poesia e na guetização da literatura. O nosso desafio é alcançar aquilo que nunca esteve para ser alcançado e só podemos fazê-lo pulando fora do círculo vicioso, largando a pá e correndo para além do horizonte de eventos desse buraco fundo o suficiente para nos fazer desistir antes de tentar. Poderíamos começar com novas questões. Eis algumas delas: será que todos precisam de poesia? Será que ao que chamamos poesia – essa poesia de poetas e a maneira que ela se desenvolveu no século xx –, não se esconde a farsa de um protomercado que nem ao menos chegou a ser formulado? Será que o poético pode ser vendido? Será que ele é exclusividade dos grupos ou instituições que se formaram em sua defesa? Será que ele pode passivamente ser adequado e subclassificado em uma forma manifesta como a do poema, por exemplo?

Sim, o poema é um dos ritos da poesia, mas não o único, nunca o foi. Mesmo as formas mais ordinárias de projeção no real resguardam o poético – isso sempre se soube, mesmo depois de adormecida tal consciência – e, portanto, o poético pertence a todos, leia-se poemas ou não. O que se precisa é saber desvendar o poético nessas formas ordinárias – até certo ponto isto esteve na mão do cantor e a verdade nua e crua é que não está mais: não se precisa mais de poetas, ou pelo menos, não como supomos. E, talvez, a grande resposta à charada seja bem simples: é que todos – fazedores de poemas ou não – desejam ser, de alguma forma e mais do que nunca, seu próprio poeta, como fuga ao desencanto que se abate em todas as instâncias da realidade institucionalizante. Talvez (e isso é sempre um talvez) o poema não esteja mais cumprindo o seu papel de levar a poesia ao leitor, de fazê-los identificar no ordinário o que os poetas também enxergam. Mas tudo isso é menos triste para a poesia que para o poeta. Todo término e desesperança resguarda a possibilidade de um novo começo, ainda que seja para outros que não nós. Para isso é preciso que seus agentes sejam substituídos ou se movam segundos novos ethos.

Para recuperar esta força geratriz e propor novos começos, o poeta deverá enfrentar seus próprios medos e frases feitas. Ele não pode mais ser nem o cantor e nem o excluído. Seu poema não é mais uma edificação, mas uma picareta. Ele deve erguer-se na direção oposta da grande máquina de polarizações. Para além do pós-orgia, chegamos ao pós-chernobyl, e o poeta já não deveria se preocupar com posicionamentos diante de blocos ideologizantes. O que se espera dele é um movimento que vá contra aquilo que ele sempre acreditou: a centralização em si mesmo – visto que o grande mal hoje é o excesso cada vez maior das individualizações –, em direção ao rompimento de todo e qualquer obstáculo de acesso aos topos.

Se todas as ciências são ciências do espaço, a poesia, fundação do espaço, deve ser a cons-ciência de seus acessos – e para isso o poeta deve pertencer a um fluxo ininterrupto de trânsito entre os topos, sem restrições impostas uns pelos outros. Falamos sempre de topos ontológicos, de uma geografia mais profunda que aquela calculada entre regiões politicamente delimitadas; uma biotecnologia da alma que se revela em estados de ser no mundo; todos autênticos e que devem ser respeitados e contemplados em suas diferenças. E é fato que até agora nós, poetas, perdemos muito tempo com questões menores, bloqueando os caminhos, emperrando o movimento e mantendo a poesia distante de sua urgência. Diante da escassez dos meios, nos preocupamos com a ocupação dos topos para dali dominar e excluir, criando mecanismos de defesa uns contra os outros e emperrando o movimento para uma realização poética plena. Há poetas, por exemplo, que fingem ignorar outros, enquanto elegem seus amigos para as resenhas e antologias e isso inibe o surgimento do novo, do surpreendente, da diferença; pior: dá margem a criação de gerações de poetas cínicos. Todos somos excluídos em alguma escala e não podemos – enquanto poetas – compactuar com qualquer forma de exclusão, seja por meio da institucionalização, do controle dos canais ou da reserva dos meios. Sim, somos, por natureza, diferentes! Sim, essa é a nossa maior identidade – a única permanência. A tensão entre fixos e fluxos do levantamento de nossa topologia, os erros ou acertos no título desta mesa, revelam-se aí.

O desafio para o poeta é ainda maior, é a democratização do trânsito entre os topos, a movimentação entre estados, em prol de uma topopoiésis, i.e.: a restituição da poética ao espaço. Em nossa topopoiésis, as diferenças não são excludentes e as identidades não são niveladoras. As diversas realidades são concomitantes, realidades opostas e contraditórias coabitam, consubstanciam e determinam o real, não por eliminação ou assimilação, mas em suas diferenças radicais. O fluxo de passagem de um topos a outro, pressupõe sempre a própria dimensão do outro. O outro é uma dimensão a mais em nosso sistema sensorial. Por isso ser poeta será, entre outras coisas, calar-se em meio ao falatório, ter o dom do silêncio diante do outro (poeta ou leitor); ser a recolha em meio ao excesso.

Só nesse estada utópico (οὐ+τόπος, sem lugar), se faz o vislumbre do trânsito entre todos os topos, rompendo as fronteiras em direção a uma entropia. As diferenças só se mostram importantes quando confrontadas. Isoladas ou em identificação dialética, elas se anulam. Por exemplo, a potência geradora subsistente aos encontros propiciados nessa mesa e os frutos que dela podem surgir é mais importante que a diferença entre cada um de seus componentes isoladamente. Essas diferenças são sim relevantes quando confrontadas umas com as outras, possibilitando tensões criadoras de novos caminhos, de outros desígnios e de maneiras plurais de ver. O debate e suas possíveis formas de lapidação do pensamento é o que fertiliza e fomenta novos mundos a serem explorados pela poesia. Esse confronto traz muito mais vantagens que a disputa vazia ou a articulação de novos redutos. É somente nesse estágio de sabedoria dos poetas que se prevê o leitor autossuficiente, aquele que pode, atravessando diversos topos, erguer não um paideuma, mas uma topologia, uma vez que ele será o coautor de todo os livros. Pois bem, é esse leitor que salvará a poesia.


[Texto lido pelo poeta Márcio-André na mesa de diálogo sobre o lançamento do livro "O que é poesia?", na Casa das Rosas]

15 janeiro 2010

Eis a questão

anterior a fala é o ritmo

anterior ao ritmo está o pulso

anterior ao pulso é a onda

anterior a onda está o movimento

anterior ao movimento é a mudança

anterior a mudança está o ato

anterior ao ato é a potência

anterior a potência está o desejo

anterior ao desejo é o humano

anterior ao humano está o ser

anterior ao ser é a existência

anterior a existência está a possibilidade

anterior a possibilidade é o impossível

anterior ao impossível está a arte

anterior a arte é a barbárie.

05 janeiro 2010

Reynaldo Bessa à queima-roupa



1) O que é poesia para você?


Prefiro começar citando um poeta brasileiro, Moacir Amâncio: “Ao tentar dizer, desdigo o não dito” Agora vamos lá. Já me sinto pisando o cadafalso: Poesia é o hino de uma nação inexistente. O buraco da fechadura que dá pra outro buraco de outra fechadura que dá pra outro buraco e outros tantos buracos. Poesia é o que paira entre o que foi captado (por um grande poeta, obviamente!) e o que vai ser escrito: Um vacilo, e já era o que ia ser dito. É como um tiro que parte de uma esquina deserta, bem no meio do peito. É como uma beldade caminhando solitária ao longe, dentro da escuridão e exalando um bom perfume que vez ou outra nos chega trazido pelo vento, mas é certo que nunca conheceremos essa beldade. A poesia nunca nasceu e, portanto nunca morre. Não dê ouvidos aos vaticinadores. Poesia é como o fígado de Prometeu. Poesia não é a Fênix, mas sim as cinzas de si mesma. Um homem se atira do décimo quinto andar: O que está entre o salto e o impacto é poesia. É o que oscila entre o que você foi, é e será. Mas esqueça tudo o que eu acabei de dizer. Poesia é. Apenas deixemo-la na varanda do infinito, esparramada em sua espreguiçadeira.

2) O que um iniciante no fazer poético deve perseguir e de que maneira?

Que só há uma única oportunidade de se escrever a própria história, portanto não a desperdice contando a história dos outros. Borges dizia que o escritor é o leitor que escreve, mas não sei se um poeta se faz lendo muito, mas se você não é verdadeiramente um poeta, no final não terá perdido nada, ou seja, terá lido muito, isso é bom. Então, leia muito, mas só o que é bom (se você está lendo esse artigo, é porque sabe separar o bom do resto, não?) depois leia tudo de novo e se possível toque algum instrumento, de preferência um alaúde, uma cítara ou uma harpa, nunca um berimbau. Por diversos ângulos, tente dizer a mesmíssima coisa, a exaustão, e no final assoe o nariz com o resultado. Nunca se sinta pronto. Um poeta pronto é um poeta morto. E pra reforçar isso tudo, cito Quintana: Um poeta satisfeito não satisfaz. Depois saia pra dar algumas voltas, fazer amor e tomar uns tragos. Divirta-se, principalmente isso.

3) Cite-nos 3 poetas e 3 textos referenciais para seu trabalho poético. Por que estas escolhas?

Ah! Pessoa com suas desassossegadas semeaduras. Murilo Mendes e sua precisão com o dedo em riste, Gullar, ah! Gullar e seus Poemas Sujos com as páginas coladas umas nas outras de tanta poesia. Quintana com seus “desaforismos” e puta merda, Bukowski que me alertou para a poesia sob as saias das mulheres, nos balcões de botecos ensebados, na música de Mozart ou numa briga de rua. Mas tem mais. Pound, Verlaine, Rimbaud, Baudelaire, (não há como fugir desses. Tente?) Manoel imprescindível de Barros, Cacaso, Drummond. E ai tem uma geração de malucos geniais que leio e que depois, maravilhado vou tomar umas brejas com eles e falar sobre seus livros: Ademir Assunção, Carpinejar, Chacal, Edson Cruz, Frederico Barbosa, Nicolas Behr, Wilmar Silva, Ricardo Aleixo, Ricardo Corona, Ricardo Silvestrin, Victor Paes, Marcio-André, mas tem a prosa também: Reinaldo Moraes, Fante (“1933...foi um ano ruim” é meu predileto) , Kerouac, Henry Miller, Bukowski, Mirisola, Céline, Bataille, Philip Roth...(Complexo de Portnoy é um esporro de poesia...e mais...) blá, blá, blá,

Mas acho que perdi o fio da meada. Qual foi a primeira pergunta mesmo?



Reynaldo Bessa é cantor, compositor, violonista e poeta. Nasceu em Mossoró-RN e está radicado em São Paulo há vinte anos. Já lançou cinco cds. O mais recente é “Com os dentes...” músicas suas sobre poemas de diversos autores brasileiros que vai de Alphonsus de Guimaraens à Carpinejar, passando por Leminski e Drummond. Bessa tem poemas e contos publicados em diversas revistas e suplementos literários espalhados pelo país e exterior. Em 2008 lançou seu primeiro livro “Outros Barulhos” poemas. Este entrou na lista dos livros finalistas do Prêmio Portugal Telecom de Literatura 2009 e venceu o 51º Prêmio Jabuti na categoria poesia. Site: www.reynaldobessa.com.br E-mail: contato@reynaldobessa.com.br

23 dezembro 2009

De onde vem o Papai Noel



Uma vez, na França, na cidade de Dijon, em 1951, tentaram acabar com o mito do Papai Noel. As autoridades eclesiásticas acharam que o velhinho estava muito comercial. Convocaram 250 crianças para enforcá-lo em praça pública. O resultado foi, ao contrário, uma verdadeira rebelião. A população ressuscitou Noel entronizando-o no imaginário popular. O antropólogo Lévi-Strauss chegou até a escrever um ensaio sobre esse episódio. Se um dos maiores pensadores do nosso tempo se deteve a analisar isto, é sinal que a figura de Noel deve ter alguma importância.

Há duas origens do mito do Papai Noel. A mais conhecida a gente sabe: está ligada a São Nicolau, um santo de origem grega, que salvou marinheiros na tempestade, libertou moças prisioneiras e ficou famoso por ressuscitar crianças. Sua imagem de bom velhinho vem daí. A célebre obra “A lenda dourada”, que conta a vidas dos primeiros santos da igreja, dedica-lhe várias páginas.

Mas há uma outra origem dessa figura, que antecede ao cristianismo e que escapou ao próprio Lévi-Strauss. E aí o Papai Noel não é nada bonzinho. O mito do velhinho que, em pleno inverno europeu, gratifica as crianças trazendo presentes em um saco às costas é, na verdade, a forma como o imaginário cristão resolveu reformular um mito arcaico que era o avesso do Papai Noel.

Trata-se de um personagem que tinha também o nome de Nicolas. Ele vinha `a frente de uma horda de mascarados estalando seu chicote, fazendo soar os sinos dependurados em sua roupa e, assim, iam assaltando povoados e obrigando os moradores a celebrarem com eles suas orgias. Traziam consigo também sacos para o sequestro de crianças. Isto ocorria exatamente no solstício de inverno, época que a igreja, posteriormente, escolheu para fixar o nascimento de Cristo.

Há na memória, tanto dos povos nórdicos quanto dos franceses, belgas e alemães, referências à essa horda de cavaleiros perversos. Na região de Lorraine, existe a figura do Pai com Chicote que, ambiguamente, remete tanto ao bárbaro que vinha chicoteando seus cavalos, quanto ao Papai Noel que vem docemente “chicoteando” suas renas. Coincidentemente, na biografia de São Nicolau o chicote também aparece, mas de forma invertida, pois ele que é martirizado com um chicote. Na Alemanha, a figura do “Klaubauf” - um velho com um saco para recolher crianças - remete ambiguamente para a mesma lenda. E, na Inglaterra, esse vestígio da figura pré-cristã de Nicolau, aparece no nome do diabo que é chamado de “velho Nick”.

É fascinante como o imaginário acomoda nossos temores e expectativas elaborando personagens que podem ter até suas qualidade trocadas. Assim como na tradição cristã se construía igrejas com nomes de santos, onde antes havia um templo a Apolo, Minerva etc., também as lendas de outra época passaram por um tratamento ideológico.

Ainda bem que Papai Noel se transformou em algo bom. Já chega sermos vitimados o ano inteiro por uma série variada de saqueadores que não vêm de fora, mas que vivem no mesmo país que a gente.


[Crônica de Natal enviada por Affonso Romano de Sant'Anna]

22 dezembro 2009

Rubem Fonseca e o Papai Noel

Amigos,

como vocês devem saber, Rubem Fonseca mudou de editora e acaba de lançar pela Agir, O Seminarista.

A assessora de imprensa da Agir me perguntou se eu queria receber o livro para uma possível resenha no Cronópios. Sem entrar em detalhes, nem atualizá-la sobre o embróglio cronopiano, falei que gostaria de receber o livro sim.

Estou na página 99 e lá pela 76 o romance pareceu desandar. Até então estava adorando. Escrita direta, seca, sem firulas e muitas citações em latim. Sigo a leitura torcendo pra que a metade final do livro me surpreenda.

No entanto, como é véspera de Natal, o começo do livro me pareceu espetacular. Vejam só:

“Sou conhecido como o Especialista, contratado para serviços específicos. O Despachante diz quem é o freguês, me dá as coordenadas e eu faço o serviço. Antes de entrar no que interessa – Kirsten, Ziff, D.S., Sangue de Boi – eu vou contar como foram alguns dos meus serviços.

O último foi na véspera do Natal. O Despachante deu-me um endereço e disse onde encontrar o freguês, que estava dando uma festa para um monte de gente. Bastava chegar com um embrulho de papel colorido que eu entrava na casa. O Despachante era um cara magro e alto, muito branco, louro, e estava sempre de terno preto, camisa branca, gravata e óculos escuros. Ele me pagava bem.

‘O freguês está vestido de Papai Noel e tem uma berruga no rosto ao lado direito do nariz.'

Sempre odiei, desde criança, esses papais-noéis fazendo Ô! Ô! Ô! Sei que o ódio é um surto de insanidade, como disse Horácio, Ira furor brevis est, mas ninguém está livre dele. Vesti uma roupa alinhada, peguei uma caixa vazia e fiz um enorme embrulho de presente. Coloquei sob a camisa a minha Beretta com silenciador e toquei a campainha da casa do freguês.

Por sorte minha quem abriu a porta foi o Papai Noel. ‘Entra, entra’, ele disse, ‘feliz Natal!’

‘Faz Ô! Ô! Ô! pra mim’, pedi, enquanto constatava a berruga ao lado do nariz.

‘Ô! Ô! Ô!’, ele fez. Dei um tiro na sua cabeça. Sempre dou um tiro na cabeça. Com esses coletes novos à prova de bala, aquela técnica de atirar no terceiro botão da camisa para furar o coração pode não funcionar.”

Animador, não?

21 dezembro 2009

A música é a musa de todos nós

Podemos ter uma ideia do caráter de um povo, de um momento histórico e de um ser humano pela música que ele pratica e ouve. A música não só revela os sentimentos e emoções íntimas do ser humano, mas também os gera e os transforma.

Neste sentido torna-se valioso o conhecimento do material utilizado pelos músicos e compositores, mesmo que não o manipulemos como músicos; pois certamente somos mais influenciados pelas sonoridades que nos cercam do que gostaríamos de admitir.

A música pode nos levar a possibilidades de experiências jamais tentadas. Em todas as culturas antigas do mundo, a música existiu em função do ritual, do serviço a alguma divindade, da expansão da consciência e das mais profundas experiências humanas. Os ritos e cultos xamanísticos, os rituais da África ou da América do Sul, do Extremo Oriente, trabalham com um conhecimento - que podemos chamar de inconsciente - de uma força primordial, ou lei, desencadeada através de manifestações sonoras e rítmicas.

Esse conhecimento, por si só, já seria interessante para nós ocidentais ou ocidentalizados. Poderíamos, e isso só cabe a nós, não só deixar essa energia agir de forma mágica, mas também experimentá-la conscientemente, tornando-a mais presente, a nosso dispor e com isso tornando-nos seres mais perfeitos, íntegros. Em suma, mais seres humanos.

Nas civilizações da antiguidade, o som organizado inteligentemente representava a mais elevada de todas as artes, e a música, a mais importante das ciências, o caminho mais poderoso à iluminação religiosa e a base de um governo estável e harmonioso. A música vigorosamente agia sobre o caráter do homem.

Hoje, nós modernos ou pós-modernos, pós-tudo, ex-tudo (como diz Augusto de Campos), não estudamos, não mudamos, emudecemos e o pior: ficamos surdos.

quando não ouvimos

a própria voz

desafinamos.

Não consideramos mais o som audível um reflexo terreno de uma atividade vibratória, que se dá além do mundo físico, mais fundamental e mais próximo do âmago das coisas.

Inaudível ao ouvido humano, essa atividade vibratória cósmica é a origem e a base de tudo que foi e continua a ser gerado no universo.

Além da música, a expressão do discurso era considerada um reflexo no mundo da matéria dos tons cósmicos. Esses tons cósmicos eram chamados pelos egípcios de «o verbo» ou «o verbo dos deuses»; pelos gregos de «a música das esferas».

As palavras, ouvidas por este diapasão, possuem um poder encantatório imenso. Já disse Louis F. Céline que o trabalho com as palavras pode matar um homem. Se pode matá-lo pode também salvá-lo, digo. Os arranjos são infinitos, aprendamos a escolher.

No princípio, então, sempre esteve o som, o verbo, a palavra, o ritmo, o logos. Como na música, assim na vida, já ouvimos. Diga-me qual a palavra e te direi quem és.

Os poetas, a meu ver, têm a função de recuperar este poder encantatório das palavras, tão corroídas pelos clichês. A função do músico, por outro lado, é colocar ordem no caos. Os ruídos são muitos e a afinação e a harmonia (esta deusa/ artesã que cria as formas mortais) parecem ser as buscas mais adequadas para o momento histórico que vivemos, depois de termos sido estilhaçados por duas guerras mundiais, duas bombas atômicas e experiências estéticas que reverberaram o caos e a desordem.

De partes bem ajustadas assenhora-se o sábio do Todo.

Os ouvidos não têm pálpebras.

Conta-se que Villa-Lobos, quando questionado sobre como conseguia compor com tantos ruídos externos (janela aberta aos sons da urbe ensandecida), respondeu com simplicidade: «meu filho, o ouvido externo não tem nada a ver com o ouvido interno».

É nosso ouvido interno que urge ser aprimorado e utilizado para a reconstrução do mundo e de uma vida mais plena. Tarefa difícil, mas necessária. Precisaremos de cardumes de bons músicos e poetas.