28 maio 2020

NÁUFRAGOS
















 

ó musa fugidia e divina

artesã da narrativa cósmica dos seres

conta-nos o que já não podemos vislumbrar

ou venha recriá-la com adendos.

por mais que estejas cansada

de artimanhas

e dos fazeres tempestuosos de Cronos

por mais que teu coração esteja constrangido

pelo padecimento dos seres

peço-te que não nos abandone

não nos deixe ser abraçados pela ira

de Poseidon

que irritado com a loucura dos povos

e governos

despeja-nos no mar revolto

da desesperança.

o que podes dizer que ainda não foi dito?

quais imprecações ou bálsamo

teu canto pode inspirar?

quem sabe poderia nos lembrar

que somos frutos de um amar, nutridos

no sal corrosivo do ultramar,

estrangeiros

em nosso próprio lar.




[obra A Nona Onda, de Ivan Aivazovsky]











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