
[Da janela do diretor da Biblioteca Nacional de Brasília, Antonio Miranda]

[Antonio Miranda, Abreu Paxe, Frederico Barbosa e Paulo César de Carvalho]
O poeta Affonso Romano de Sant’Anna pede-me que divulgue o poema abaixo. Circula na web uma versão atribuída a ele e que está a ser usada como campanha contra o Lula.
O poema correto foi escrito em 1984, durante a ditadura, e reagia ao episódio macabro do ‘Rio Centro’. Confira.
A Implosão da Mentira
Affonso Romano de Sant'Anna
Fragmento 1
Mentiram-me. Mentiram-me ontem
e hoje mentem novamente. Mentem
de corpo e alma, completamente.
E mentem de maneira tão pungente
que acho que mentem sinceramente.
Mentem, sobretudo, impune/mente.
Não mentem tristes. Alegremente
mentem. Mentem tão nacional/mente
que acham que mentindo história afora
vão enganar a morte eterna/mente.
Mentem. Mentem e calam. Mas suas frases
falam. E desfilam de tal modo nuas
que mesmo um cego pode ver
a verdade em trapos pelas ruas.
Sei que a verdade é difícil
e para alguns é cara e escura.
Mas não se chega à verdade
pela mentira, nem à democracia
pela ditadura.
Fragmento 2
Evidente/mente a crer
nos que me mentem
uma flor nasceu em Hiroshima
e em Auschwitz havia um circo
permanente.
Mentem. Mentem caricatural-
mente.
Mentem como a careca
mente ao pente,
mentem como a dentadura
mente ao dente,
mentem como a carroça
à besta em frente,
mentem como a doença
ao doente,
mentem clara/mente
como o espelho transparente.
Mentem deslavadamente,
como nenhuma lavadeira mente
ao ver a nódoa sobre o linho. Mentem
com a cara limpa e nas mãos
o sangue quente. Mentem
ardente/mente como um doente
em seus instantes de febre. Mentem
fabulosa/mente como o caçador que quer passar
gato por lebre. E nessa trilha de mentiras
a caça é que caça o caçador
com a armadilha.
E assim cada qual
mente industrial? mente,
mente partidária? mente,
mente incivil? mente,
mente tropical? mente,
mente incontinente? mente,
mente hereditária? mente,
mente, mente, mente.
E de tanto mentir tão brava/mente
constroem um país
de mentira
-diária/mente.
Fragmento 3
Mentem no passado. E no presente
passam a mentira a limpo. E no futuro
mentem novamente.
Mentem fazendo o sol girar
em torno à terra medieval/mente.
Por isto, desta vez, não é Galileu
quem mente.
mas o tribunal que o julga
herege/mente.
Mentem como se Colombo partin-
do do Ocidente para o Oriente
pudesse descobrir de mentira
um continente.
Mentem desde Cabral, em calmaria,
viajando pelo avesso, iludindo a corrente
em curso, transformando a história do país
num acidente de percurso.
Fragmento 4
Tanta mentira assim industriada
me faz partir para o deserto
penitente/mente, ou me exilar
com Mozart musical/mente em harpas
e oboés, como um solista vegetal
que absorve a vida indiferente.
Penso nos animais que nunca mentem.
mesmo se têm um caçador à sua frente.
Penso nos pássaros
cuja verdade do canto nos toca
matinalmente.
Penso nas flores
cuja verdade das cores escorre no mel
silvestremente.
Penso no sol que morre diariamente
jorrando luz, embora
tenha a noite pela frente.
Fragmento 5
Página branca onde escrevo. Único espaço
de verdade que me resta. Onde transcrevo
o arroubo, a esperança, e onde tarde
ou cedo deposito meu espanto e medo.
Para tanta mentira só mesmo um poema
explosivo-conotativo
onde o advérbio e o adjetivo não mentem
ao substantivo
e a rima rebenta a frase
numa explosão da verdade.
E a mentira repulsiva
se não explode pra fora
pra dentro explode
implosiva.
(Poema publicado no JB em 1984, quando do episódio do Rio Centro e em diversas antologias do autor. Está em “ Poesia Reunida” L&PM, 1999, v.2)
Na sexta-feira, dia 26/03, cheguei em cima da pinta em Brasília para participar do lançamento do livro “O que é poesia?”, na Livraria Dom Quixote do Centro Cultural Banco do Brasil. Por feliz coincidência, ao lado do auditório aonde iriam acontecer as mesas da Conferência Internacional sobre o Futuro da Língua Portuguesa.
O debate foi extenso e não queria acabar. Os caminhos da poesia contemporânea brasileira. Até o poeta angolano Abreu Paxe discursou sobre a nossa poesia e não escondeu sua visão de que o concretismo é um marco para a poesia mundial.
Instigados pela fala do poeta Felipe Fortuna, o debate culminou na controversa questão da letra de música e suas especificidades em relação à poesia.
O poeta Antonio Cicero realçou o fato de que não se aprende a ler poesia nas escolas, o que, concordamos todos, é crucial para o presente estado de coisas. Ao que tudo indica, lê-se pouco poesia e vende-se menos ainda.
Vários poetas vieram prestigiar o debate. Por exemplo, Luis Turiba e Régis Bonvicino estavam atentos na plateia.
Uma noite e tanto.
Não há dúvidas de que vivenciamos um momento único. Para o bem e para o mal. Novas necessidades, novas atitudes e novos fazeres geram novos conceitos, novas palavras, novas relações com a língua falada e escrita e, no limite, devem mudar nossa maneira de encarar o mundo e a vida.
O filósofo Pierre Lévy cunhou a palavra-conceito cibercultura que já contaminou nossa maneira de pensar, falar, criar e de nos relacionar. No centro deste conceito está, a meu ver, a não linearidade proposta pelos hipertextos, a comunicação flexível e de mão dupla onde não há mais uma hierarquização visível do produtor de sentidos e nem um topos delimitado.
Transitamos da galáxia de Gutemberg para a galáxia da Internet, com todos os seus agregados e desdobramentos possíveis. E a lingua já está em contaminação. O futuro da língua portuguesa depende, então, de uma presença mais concreta e consciente neste universo da tecnologia da informação.
Até o chamado “letramento”, considerado como um conjunto de práticas sociais que usam a escrita, enquanto sistema simbólico e enquanto tecnologia, está se readequando e, não há dúvidas, com consequências para a sociedade e para a língua que irmana tal sociedade.
Não há como fechar os olhos ou simplesmente dizer que se escreve mal e rapidamente na Internet. Que o inglês está contaminando a escrita utilizada na web. Que se come a grafia das palavras entre os mais jovens, etc. A preguiça e o conservadorismo têm que ser deixados de lado.
Nunca se escreveu e se leu tanto quanto nestas últimas décadas. Tantos emails trocados. Tantos blogues criados e abandonados e mais tantos sendo criados neste exato instante. Internet mais acessível. Computadores sendo vendidos a prazo pelas Casas Bahia. E, me parece, que nunca se produziu tantos textos literários, ou pretensamente literários. Ou, pelo menos, nunca se tornou tão visível a produção dos mesmos.
Não é necessário ser um especialista em linguística, nem concordar com as ideias do linguista americano Steven Fischer, para perceber que a língua é viva e dinâmica e se transforma com ou sem o nosso olhar diacrônico.
Segundo Fischer, em mais ou menos 300 anos, nosso querido português brasileiro se transformará em uma espécie de portunhol. Talvez o “portunhol selvagem” já apregoado e bem utilizado pelo nosso “poeta de fronteiras”, Douglas Diegues.
Mas o futuro é incerto. Certo, apenas, é o presente. E o que fazemos dele. Há pouco tempo, ninguém apostaria na influência mundial da Internet. E mesmo atualmente, com a mundialização, ou globalização, quem preveria a emergência de regionalismos e nacionalismos incentivados pela própria Internet?
Temos - nós escritores, editores, professores e amantes da língua – que correr. No mês passado, a gigante editorial americana Simon & Schuster ditou novas regras para seus escritores. E quais são elas? Abrir um blogue. Criar uma página no Facebook. Gerar conteúdo em redes sociais literárias. Enfim, interagir. Sair dos escritórios empoeirados ou da redoma criativa.
A língua exige o mesmo de nós. Que interfiramos no processo. Que escrevamos bem em nossos emails. Que atualizemos constantemente nossos sites e blogues e chats e hot-sites e demais sítios que pudermos. Que escrevamos muitos caracteres, sim. Nada de se curvar à rapidez, às poucas palavras, ao pensamento de que o outro não lerá um texto mais denso. Usemos o Skype. Criemos Podcasts. Deixemos nossa voz reverberar no ciberespaço. Cravemos nossa bandeira lusófona lá.
E no sétimo dia, Deus observando sua criação regozijou-se. No oitavo, o Google chegou e apoderou-se de tudo.
[Texto base de minha participação na Conferência Internacional sobre o Futuro da Língua Portuguesa no Sistema Mundial, dias 27 e 28/03, em Brasília]
duas flores desiguais: o amor e o desamor. entre a pétala e a sépala floresce um cosmos. do nascimento à morte o mistério jaz. de um limite ao outro o extremo se perfaz. há gente que mata como quem vive. há outros que imitam um serial killer.
de tudo sobra quase nada. gota de orvalho na manhã do Saara.
os cães já não me seguem. os lugares todos me desertam. vivo pisando no chão dos nefelibatas. toda a vida é um acontecimento sinistro. o segredo da noite recolhe meus cacos. uma flor oferece seu pistilo. eu sigo acariciando meu destino.
[Victor Paes, Tavinho Paes, Antonio Cicero, André Vallias, Márcio-André, Luis Serguilha, Karla Melo e Edson Cruz]
Na tarde de quinta, dia 25, fui para o aeroporto de Congonhas com antecedência mineira tomar o voo que me levaria ao Rio de Janeiro. Às 17h30, aconteceria o lançamento, na Livraria Travessa da rua Ouvidor, do livro “O que é poesia?”.
Confesso que não estava muito animado, pois, ainda em São Paulo soube que o aeroporto Santos Dumont estava fechado e alguns voos haviam sido redirecionados para o Galeão. Se isso acontecesse, não conseguiria chegar a tempo do evento. Além do mais, o horário me soava meio esquisito (impensável para um lançamento aqui em São Paulo) e, para complicar, havia a chuva (dizem que os cariocas não saem de casa quando está chovendo).
Por sorte, o aeroporto foi liberado e, quase no horário previsto, o avião taxiou sobre a cidade dita maravilhosa sob nuvens impedindo-me de apreciar o que dizem ser uma das mais belas paisagens aéreas do mundo. Paisagem que preciso contemplar antes de 2012, pois a julgar pelo filme catástrofe que está rolando por aí, ou pelas previsões do calendário da vez, o Maia, ou pelas observações de James Lovelock em seu novo livro, parece que não vai durar muito.
A trinca de confrades do vento, Márcio-André, Victor Paes e Ronaldo Ferrito estavam umidamente me aguardando. Já foram reforçando meu temor e predisposição sobre os cariocas. Chuva não combina com carioca nas ruas.
A divulgação do evento foi mais do que “profissa” e generosa. Deu no jornal, no rádio. Saiu resenha. Um belo contraste com o desprezo gelado da mídia paulistana para o lançamento feito na Casa das Rosas. Afinal, tanto como em São Paulo, no Rio conseguiríamos reunir uma turma de poetas bacanas de várias gerações e tendências: Affonso Romano de Sant’Anna, Antonio Cícero, André Vallias, Márcio-André, Victor Paes, Tavinho Paes e o português Luis Serguilha.
O poeta Affonso Romano não pode comparecer pois teve compromissos em Nova York. Escapou da chuva, mas topou com muita neve. Mandou um pequeno texto provocador que li na abertura do evento e que norteou muitas das questões e comentários na Livraria da Travessa. Confiram.
O QUE (NÃO) É POESIA
Affonso Romano de Sant’Anna
O poeta Edson Cruz organizou o livro de depoimentos: O QUE É POESIA. É um livro generoso. Ouviu 46 poetas brasileiros e alguns estrangeiros. O volume foi lançado primeiro na Casa das Rosas (SP) com direito a debates, poemas, música. Foi lançado esta semana na Livraria Travessa (Rio). Eu deveria estar lá, mas tive que ir a NY. Pensei em pedir que lessem apenas um poema meu que trata do tema. Depois pensei: poderia fazer um curto depoimento sobre certas questões que marcam a poesia brasileira hoje. Afinal, há mais de 50 anos que estou na estrada e vi coisas de que nem Deus mais dúvida.
Naquele livro, minha definição de poesia é, talvez, a menor de todas: " Poesia é o espanto transverberado". Na Casa das Rosas sugeri que se fizesse outro volume igual/contrário/complementar: O QUE (NÃO) É POESIA. Aprende-se também virando as questões pelo avesso.
Então, acrescento agora algumas questões que me parecem atuais. Cada uma delas merecia o capítulo de um livro e horas de discussão.
1. Quanto mais a poesia se distanciou do público mais começou a conversar (solipsisticamente) consigo mesma. E o contrário é verdadeiro: mais os poetas se fecharam em seus solilóquios de "autistas", mais se afastaram do público.
2. As vanguardas, em geral, praticaram a "estratégia da exclusão": ou seja, a história da poesia contém eu e três amigos, o resto é lixo. A "estratégia de exclusão" é uma política de poder e com ela a poesia brasileira se empobreceu. É posição dos que acham que eliminando o outro vai sobrar espaço para si. É tão danosa quanto uma estratégia de inclusão indiscriminada.
3. A aproximação entre música popular e poesia erudita é um fenômeno que mereceu teses e livros (meu inclusive). Mas nem toda letra de música é poesia. E acresce que se praticou uma poesia contaminada pela "letra de música" que, sem música, é precária.
4. Considerando uma certa produção em voga observa-se que se perdeu um "métier" do tratamento do verso enquanto unidade rítmica e formal. A indiferenciação entre prosa e poesia é um equívoco.
5. O poema curto, engraçado, tipo jogo de palavras, pode ser uma praga. Mário de Andrade lamentava "o poema piada feito para dar risada". Não é que não se pode/deve fazer poema com humor, mas transformar isto de novo em "moda" é um renovado equívoco.
6. No Brasil criou-se a falácia que o poeta tem que saber várias línguas e ser tradutor de outros poetas. Alguns poetas imigraram para a poesia alheia abandonando a sua possível poesia.
7. Poesia brasileira não é só Drummond e Cabral, que, aliás, se hostilizavam. Cabral dizia que Drummond "desbocou" depois de "Brejo das Almas". O que é uma tolice.
8. Há que reativar a obra de poetas esquecidos, detonados na guerra entre os grupos e gerações. É necessário reinventar a crítica de poesia no Brasil e prestar mais atenção em poetas fora do eixo Rio/São Paulo.
9. Enfim, somos meia dúzia de gatos pingados. Por que ficar se estraçalhando em praça pública? Avareza (formal) não conduz necessariamente à poesia. Às vezes, ela surge do seu oposto, da generosidade.
Na língua e no pensamento gregos havia duas formas de se encarar e vivenciar o tempo. O que eles chamavam de Chronos, gerou a palavra cronológico, e carregava o sentido de passagem do tempo, sequencial e quantitativo. O outro termo era Kairos, o tempo qualitativo, aquele que não pode ser medido e que nos faz sentir um século passar em um instante.
Qualquer narrativa, em qualquer arte, tem que trabalhar com a questão do tempo e, no limite, criar o seu próprio tempo. Há aquelas que primam pelo uso essencial do tempo, como a música, o cinema, os quadrinhos e a literatura.
Um romance, por exemplo, construído de forma linear, com começo, meio e fim e os fatos e peripécias desenvolvendo-se um após outro, flerta com Chronos em sua tessitura. Mas há aqueles que instauram Kairos em seu tecido ficcional e na fruição que nos possibilitam.
O escritor francês, Marcel Proust, foi um mestre do tempo na perspectiva revelada pelo conceito grego de Kairos. É o escritor que, talvez, melhor tenha conseguido retratar a passagem do tempo vivido e rememorado no romance moderno.
Sua monumental obra, Em Busca do tempo Perdido, foi elaborada em sete romances que se entrelaçam, formando um todo harmônico e musical feito uma sinfonia. A metáfora da música é mais do que adequada quando falamos em tecer o tempo com o grau de refinamento e destreza que Proust realizou.
A sinfonia de Proust foi composta em sete movimentos: No Caminho de Swann, A Sombra das Raparigas em Flor, O Caminho de Guermantes, Sodoma e Gomorra, A Prisioneira; A Fugitiva e O Tempo Redescoberto.
Ficamos sabendo, lendo suas anotações, que o último capítulo de O Tempo Redescoberto foi escrito imediatamente após o primeiro capítulo de No Caminho de Swann o que, por si só, demonstra que o romance não foi concebido linearmente, pois a matéria central entre os dois foi escrita depois.
Proust buscou representar por intermédio do narrador, indiferente à cronologia e à organização lógica, as suas próprias questões existenciais. O narrador, que é o personagem principal, coloca o problema de uma vocação que se debate até tomar consciência de si mesma no último livro do romance.
Mas a forma como ele fez isso é que ainda faz toda a diferença. E sabemos que em arte a forma conta mais do que o conteúdo. Em Proust a narrativa é vivenciada no presente e o tempo que nos mostra não é apenas retrospectivo (foi um dos primeiros a usar a técnica de flashbacks na literatura), mas também prospectivo.
O tempo em Proust está ligado, intimamente, com a memória e, mais especificamente, com a memória involuntária, que é o afloramento à consciência de determinada lembrança a partir de uma sensação análoga à outra experimentada anteriormente.
Por exemplo, quando o narrador ouve uma sonata, no momento em que sua amada já o desprezava, sente voltar o tempo em que era amado por ela. Não só o tempo, mas as sensações prazerosas daqueles instantes já perdidos.
Ou quando saboreia uma madeleine (um biscoito fino) molhada no chá e sente uma profunda alegria ao relembrar da cidadezinha onde passava férias e de toda a infância, da atmosfera de todo o período de seu passado aflorado na consciência, neste exato instante, pelo gosto do biscoito em sua boca.
A questão do tempo, então, não é apenas uma questão de se estabelecer a proporção entre a importância do evento e o tempo destinado ao seu tratamento. No romance, a duração percebida está relacionada à sintaxe. Os voos estilísticos e as digressões retardam, por exemplo, o fluxo da narrativa. E neste aspecto, o romance de Proust é um verdadeiro marco narrativo. Proust cria e recria o tempo com maestria, gerando um ritmo extremamente lento, que parece dissolver a ação.
Sua narrativa envolve uma temporalidade tríplice: o tempo da história, o tempo do discurso e o tempo de produção do discurso.
O tempo da história pode abranger uma vida toda. O tempo do discurso compreende o tempo necessário para se ler o romance. O tempo de produção do discurso é como esta história é contada no tempo, ou seja, esta vida toda pode ser contada em um dia, ou toda a infância aflorando a partir de um sabor rememorado.
O tempo buscado por Proust é aquele que não existe mais em nós, mas que continua a viver oculto em um sabor, uma fragrância, uma imagem, as torres de uma igreja. Tempo recuperado pelo conteúdo que emerge à consciência.
Muito se falou da relação da obra de Proust com as ideias e reflexões do filósofo Henri Bergson. Não se pode negar em Proust, a influência bergsoniana na apreensão do tempo como “duração” fora do encadeamento sucessivo dos fatos. Mas, não seria totalmente verdadeiro conceituar o romance proustiniano como uma adequação literária da filosofia de Henri Bergson, como muitos o fazem.
Ele conheceu a filosofia de Bergson mais tarde do que se imagina e negou categoricamente em entrevista a existência de uma relação direta entre a sua obra e as teorias do filósofo.
Mesmo no quesito memória, o denominador comum entre Bergson e Proust está na crítica de ambos às limitações da memória ligada à inteligência. Bergson considera que a totalidade do passado é conservada, desde o despertar da consciência. Para Proust, a memória aparece como um abismo, de onde só um pequeno número de lembranças é resgatado. Mas a julgar pelo caudal de sua obra, o que para ele é pequeno, em nós é quase afogamento.
Há quem identifique no estilo de escrita de Proust, cheio de idas e vindas, com avanços e recuos alternados e simétricos, frases e períodos longuíssimos, uma correspondência aos impulsos de uma respiração que luta para vencer a falta de ar, pelo fato dele ter sido asmático desde criança. Até já nomearam esse estilo de “rosácea de Proust”.
O fato é que, depois de Proust, a importância do enredo e as narrativas tradicionais com começo, meio e fim, foram abaladas irremediavelmente. O tempo é o senhor de tudo. Tambor de todos os ritmos. E ele aguarda que todos possam usufruir do biscoito fino, a madeleine, que Proust nos ofertou.
[Texto escrito e reelaborado com outro título para a edição nº 3 da baiana Revista Lícia]