10 junho 2011

Meu samba, aqui.






















Nada como uma boa notícia para espantar o banzo destes dias à espera da Musa Rara e do provável chapéu dado pelo programador.

Acabo de receber a capa e o miolo de meu próximo livro. O projeto gráfico ficou matador. O título do livro é quase o do blogue. Quase. O conceito, Sambaqui, palavra sonora derivada do tupi (ta’mba, sa’mba = concha + qui = amontoado), foi muito bem captado e realizado pelo designer gráfico, Bruno Brum, em fotos tiradas por ele e por Milton Fernandes pelas ruas de Belo Horizonte. O resultado será lançado no mercado (esse deus que nos devora a todos) em meados de agosto/início de setembro. Ou até antes, pois estamos adiantados no processo.

O livro foi contemplado com a Bolsa de Criação Literária, dada pela Petrobras, há dois anos. A editora foi um toque espertíssimo do poeta mineiro Ricardo Aleixo, a Crisálida Editora de BH, que também editou seu livro Modelos Vivos.  Quando três poetas negrões (Aleixo, Ronald Augusto e eu) sentam pra tomar cerveja escura, só pode sair coisa boa. Sair um pouco do eixo Rio-São Paulo de produção de bens culturais.

Um poema do livro:


a impossibilidade do silêncio

sem linguagem nada se mostra
ao ser.
ao calar-se, Wittgenstein falou
com a eloquência rara
dos tagarelas
das paisagens sem vento.
o silêncio só é
possível na morte.
mesmo assim ele ulula
cão sem dono
entregue à própria sorte.

 


.

05 maio 2011



O Encontro Prática de Escrita acontece informalmente desde 2001, mas há quatro anos o evento ganhou periodicidade e formato e vem se tornando parte da agenda de quem gosta de literatura. O principal objetivo do encontro é reunir pessoas que não só apreciam a literatura, mas também tudo que circunda a prática de escrita literária. A programação é dividida em dois tempos, o primeiro gira em torno das mesas com palestrantes, que discorrem sobre assuntos que permeiam o universo da literatura; o segundo tempo é das oficinas de criação literária. Pelo evento já passaram nomes como: Milton Hatoum, Marcelino Freire, Raphael Draccon, Kizzy Ysatis, Roberto de Souza Causo, Sérgio Pereira Couto, entre outros.

O evento deste ano tem como convidados: o escritor, jornalista e apresentador do programa Metrópolis, da TV Cultura, Cadão Volpato; a jornalista, escritora e apresentadora do programa Letras & Leitura, na Rádio Eldorado, Mona Dorf; e o escritor e jornalista, apresentador do programa Perfil Literário, na Rádio Unesp, Oscar D’ambrósio. Cadão falará sobre sua prática literária; Mona Dorf e Oscar tratarão do universo literário, compartilhando suas experiências em centenas de entrevistas com escritores.

O encontro deste ano acontece no dia 7 de maio, sábado, das 10h às 16h30, na Universidade Cruzeiro do Sul, campus Liberdade e é organizado pela Terracota editora como parte da programação do curso de lato sensu em Criação Literária.

____________________________________

Quando: 7 de maio de 2011 – das 10 às 16h30
Onde: Universidade Cruzeiro do Sul – Campus Liberdade – Rua Galvão Bueno, 898 / São Paulo-SP
Quanto
: Entrada Franca
Vagas: 120 (mesas) – 15 (oficinas)


PROGRAMAÇÃO

Mesa 1 – das 10 às 11h15
A PRÁTICA DE CRIAÇÃO DE CADÃO VOLPATO
Convidado: Cadão Volpato
Mediação: Nelson de Oliveira

Mesa 2 – das 11h15 às 12h30
DO QUE FALAM OS ESCRITORES
Convidados: Mona Dorf e Oscar D’ambrósio
Mediação: Edson Cruz


Oficinas

A ARTE DO ENSAIO
com Cláudia Vasconcellos
das 14h30 às 16h30
Escrever um ensaio é discorrer de um modo muito pessoal sobre um assunto, qualquer assunto. Não precisa ser um expert no tema que se vai abordar, porque aquilo que transparece no ensaio é sobretudo a opinião bem elaborada do ensaísta. A oficina de ‘Ensaios’ discorrerá sobre como este gênero de escrita nasceu, fornecerá dois breves exemplos, os quais fornecerão um modelo deste tipo de escrita, e, então, os participantes serão convocados a escrever os seus ensaios, ou seja, a darem as suas opiniões e por meio delas se darem a conhecer. Para interessados a partir de 18 anos.

COMO CRIAR UM INUTENSÍLIO SEM SE TORNAR UM INÚTIL
com Edson Cruz
das 14h às 16h
Uma oficina de criação e análise poética ligeira e profunda como o tanque de Bashô. Ah, você não sabe do que estamos falando? Não sabe se o que lê e o que escreve tem melopeia, fanopeia ou logopeia? Não sabe a diferença entre um marceneiro e um poeta na Grécia antiga? E qual a função da poesia em tempos de big brother e consumo desenfreado? É meu chapa, você está precisando de uma oficina como essa.

SOLTANDO A LÍNGUA
com Marcelino Freire
das 14h às 16h
Quer soltar o verbo mas não sabe como? Tem um projeto de um livro mas na hora de escrever deu um branco? Está difícil de organizar as ideias e os sentimentos? Pois bem: o escritor Marcelino Freire (autor, entre outros, do livro “Contos Negreiros”) dará, nesta rápida oficina, algumas dicas de como trabalhar o texto (não importando o gênero literário) e fazer do seu “bloqueio” artístico algum muito criativo. Para interessados em literatura, a partir de 14 anos.

ESCREVER PARA JOVENS. QUE HISTÓRIA É ESSA?
com Marcelo Maluf
das 14h às 16h
Escrever literatura para jovens é uma linha tênue que muito se aproxima da literatura adulta. Harry Potter e Artemis Fowl são exemplos de textos que ganharam o público adulto. Enfim, escrever para jovens, que história é essa? Marcelo Maluf é autor entre outros de “Jorge do Pântano que fica logo Ali”, e organizador da Antologia infanto-juvenil “Era uma vez para sempre”, nessa oficina prático-reflexiva, Marcelo dará dicas e possíveis caminhos da literatura contemporânea para jovens. Para interessados a partir de 18 anos.

04 abril 2011

MUSA RARA - Literatura e Adjacências (está chegando...)

                                                                     by Gustavo Eri

Amigos,
é com muita alegria q informo a data de nascimento de minha nova empreitada pela literatura no ciberespaço: a data vai depender do programador.
Como muitos sabem, fiquei um pouco órfão e abatido depois de minha saída do Cronópios, em maio de 2009. Agradeço a todos os incentivos que recebi nesse meio tempo. A fila anda. Agradeço principalmente aos que prontamente toparam mais uma aventura comigo. Agradeço ao amigo Reynaldo Bessa que está queimando as pestanas para deixar redonda a programação do que ele chama de Portal.
Vamos circular a informação. Já temos uma página no facebook também.
Confiram o esqueleto do projeto, e quem já confirmou presença na nave.

MUSA RARA – Literatura e Adjacências
(www.musarara.com.br )

MUSA NA MESA (Café literário do site, na home e em todas as páginas)
POESIA
PROSA
ARTIGOS
CRÔNICAS
ENTREVISTAS
ENSAIOS
ACADÊMICOS (textos mais acadêmicos; teses completas, monografias, debate acadêmico etc)
CRÍTICA LITERÁRIA
RESENHAS
LANÇAMENTOS (Agenda, sinopses e capas)
INFANTOJUVENIL
CIBERCULTURA (textos e agitos da cultura contemporânea marcada pelas tecnologias digitais)
COLUNISTAS
TRADUÇÕES
ADJACÊNCIAS (teatro, cinema, quadrinhos, música, grafiti e outras artes)
BLOG DE NOTÍCIAS (informes quentinhos sobre o Mercado literário – autores de várias regiões com acesso direto para atualização. Por eqto: Zema Ribeiro [Maranhão]; Geo Cardoso [BH]; Fernando Ramos (editor do VAIA); Homero Gomes [Curitiba]; Edilson Pantoja [PA])
LINKS (indicações de sites e blogues selecionados)
BLABLABLOGUES (toda semana alguém apresenta e comenta um blogue ou site)
TVMUSA (espaço para vídeos e outras produções visuais/player na home com o vídeo mais recente)
BANNERS (2 espaços na home, e em todas as páginas, para publicidade)
O QUE VOCÊ ESTÁ LENDO? (enquete constante, na home, sempre mostrando as 3 últimas respostas)
MUSA RARA EDIÇÕES (embrião de editora voltada para edições on-demand, pubicações de alta-ajuda e e-books)
NEWSLETTER SEMANAL


COLUNISTAS CONFIRMADOS:

Fernanda D’Umbra [HD'UMBRA - O disco frágil de Fernanda D'Umbra]
Marcelo Moutinho
Marcelo Ariel [SENZALA GERAL]
Flavia Rocha [POETRYLANDIA - Explorando em campo a poesia contemporânea americana]
Gonzalo Aguilar
Affonso Romano de Sant’Anna [MODO DE VER]
Paulo Franchetti
Pedro Maciel [MANUSCRITOS]
Antonio Carlos Secchin [POESIA EM QUESTÃO]
Ricardo Silvestrin
Júlia Hansen (Portugal) [MAIS QUE UM ARBUSTO]
Wilmar Silva
Steban Moore (Argentina)
Ricardo Aleixo [POESIA &]
Maurício Vasconcellos [CELULAR/CASSETE/ROMANCE]
João Antonio [ARQUIVIVO]
Luis Serguilha (Portugal)
Claudio Soares
Douglas Diegues [LITERATURAS SELBAGENS]
Antonio Cicero
Antonio Vicente Pietroforte [PALAVRA QUASE MURO]
Sylvio Back
Valério Oliveira
Andrea Del Fuego [MÍNIMA LUZ]
Juliano Garcia Pessanha
Lucia Santaella [MINIATURAS]
Reynaldo Damázio
Aquiles Alencar [IMPRESSÕES DIGITAIS]
Paulo César Carvalho
Sergio Medeiros


CONSELHO EDITORIAL

Antonio Miranda [Brasília]
Affonso Romano de Sant’Anna [Rio de Janeiro]
Ricardo Aleixo [Minas Gerais]
Lúcia Santaella [São Paulo]
Carlos Emílio C. Lima [Ceará]
Nelson de Oliveira [São Paulo]
Sylvio Back [Rio de Janeiro]
Reynaldo Damazio [São Paulo]
Nilson Oliveira [Belém do Pará]
Gonzalo Aguilar [Argentina]
Sergio Medeiros [Santa Catarina]
Floriano Martins [Ceará]
Claudio Willer [São Paulo]
Aquiles Alencar Brayner [Londres]
Adrienne Myrtes [São Paulo]
Ana Peluso (Adjacências) [São Paulo]
Virna Teixeira [Ceará/São Paulo]
Ramon Mello [Rio de Janeiro]



COLABORADORES CONFIRMADOS:

Michel Melamed
Augusto de Campos
Ivone Benedetti
Adriana Versiani
Claudio Daniel
Márcio-André
Ronald Augusto
Sergio Sant’Anna
Claudio Willer
Paulo de Toledo
Mayrant Gallo
Lau Siqueira
Linaldo Guedes
André Ricardo Aguiar
Micheliny Verunschk
Antonio Miranda
Mardônio França
Eduardo Jorge
Virna Teixeira
Marcelo Tápia
Ana Peluso
Adrienne Myrtes
Reynaldo Bessa
Luis Turiba
Fabio Oliveira Nunes
André Dick
Nilto Maciel
Horácio Costa
Marne Lúcio
Luiz Roberto Guedes
Denise Bottmann
Carlos Alberto Fonseca
Gustavo Felicíssimo
Antonio Naud Júnior
Amador Ribeiro Neto
Felipe Fortuna
Nicolau Saião (Portugal)
Ivan Antunes
Tavinho Paes
José Inácio Vieira de Melo
Dirce Waltrick do Amarante
Joana Ruas (Portugal)
Fabio Vieira
Floriano Martins
José Ángel Leyva (México)
Xico Sá
Fernando Ramos (editor do VAIA)
José Geraldo Neres
Marcelo Barbão

28 março 2011

MIÚDOS



                                                                     Dona Aranha

    Hoje eu tropecei pela primeira vez na dona aranha. É assim que meu pai a chama. Ele é muito respeitoso com as aranhas. Diz que elas são damas do reino animal e que algumas se tornam viúvas negras e alegres. Não entendi direito, mas rimos um bocado. Meu pai sempre me enche de pipoca pra que eu assista o filme do homem-aranha com ele. Eu tenho medo de aranha, pai, digo, mas ele não me ouve. Repara no uniforme dele, insiste.
    Realmente, a roupa do homem-aranha é bem bacana. Meu amiguinho José já foi com ela para a escolinha. Não queriam deixar ele entrar, pois só nas segundas-feiras é que podemos levar brinquedos. Levar brinquedos, mas não vir vestido de brinquedo. O José não entendeu, chorou, esperneou e acabou conseguindo, ficou o dia todo sendo o próprio homem-aranha. Se bem que no meio da tarde ele já estava todo molhado. Acho que ser o homem-aranha deve ser muito cansativo.
    Mas a aranha que eu esbarrei é menina e tem muitas perninhas. Eu pensava que elas tinham muitas perninhas pra piscar a gente mais vezes. Meu pai fez uma careta e disse “ah, picar, você quer dizer... mas não é bem assim”. As perninhas eram para se segurar e correr mais rápido. Assim como as baratas. Arrgh. Não vamos falar delas agora não, pai. Que nojo! Mamãe, o papai está falando de baratas!
    Ufa, meu pai mudou de assunto. Ele está dizendo que todos os miúdos têm algo muito precioso que é a vida. Hum... Miúdos é como ele chama tudo que é pequeno: bebês, plantinha, bichinhos e até eu que já não sou mais um bebê. Aliás, minha mãe perguntou outro dia se eu gostaria de ter um miudinho.  Ela queria dizer um irmãozinho. Ah, seria bom mais um miúdo nesta casa.
    Mas papai, a dona aranha tem outra coisa mais preciosa? Não sabe? É que eu acabei de esmagar aquele algo muito precioso da dona aranha. E todas as suas perninhas. Foi sem querer, papai! Ah, sem querer também é causa negativa? Que coisa chata.


[Primeiro conto de meu projeto de livro infantojuvenil, MIÚDOS.]

22 março 2011

BANZO




















carrego em meu lombo
várias máculas onomásticas

sou Zé, filho de Edward
um desterro sem quilombo
e sobre o nome
a Cruz

sou nenhum
mulato negro índio
      ninguém tingido d’água
salgada vindo

mesmo depois de liberto
sapatos a luzir
— inédita condição —
um ilhéu
que o destino não quis
soteropolitano

um grapiúna no sul-
maravilha quase
impecável
sem marcas
       cicatrizes
não ungido
sem excesso
       de melanina

algo assim próximo à matéria
alva que se tinge o mundo
visão última
dos que erram o alvo
e encontram
a morte


[foto: Pierre Verger]

16 março 2011

...O Portal do Dragão - Uma versão...


quando o torpor do sono vem
e o ser apaziguado fica

algo enfim desperta e bem
com o sonido d’água  precipita

e feito sonho dentro de um sonho
a imagem de um peixe nos habita

salta pra fora num dançar bisonho
alçando-se ao topo da queda entrevista

(mas não é tão simples para uma carpa
transformar-se em um dragão)

assim como as carpas buscam
o portal do dragão

assim como os poetas anseiam
enxergar na escuridão

assim como o plebeu almeja
algum dia ser barão

todos o seres ensejam
alcançar a iluminação

(mas não é tão simples para uma carpa
transformar-se em um dragão)

parece fácil como tocar harpa
como tatuar o sim na água do não

mas um canto grave como bordão
repete sempre o mesmo refrão

não desanimem, persistam
superem o limite do ego falastrão

pois ninguém escapa da morte
nem mesmo o grande dragão.


[Poema inspirado na parábola budista de mesmo nome. Confira.]

02 março 2011

Módulo Poema - Terracota

Ontem, foi o último encontro do curso Prática de Criação Literária-Módulo Poema, lá no espaço da Terracota Editora. Para finalizar o curso com chave de ouro, convidei dois poetas batutas e bem-falantes. Deram um show de erudição, humor e consciência poética. Valeu, Glauco Mattoso e Luiz Roberto Guedes.

Glauco Mattoso, Edson Cruz e Luiz Roberto Guedes

Edição do Jornal Dobrábil, de Glauco Mattoso

                                                              [fotos: Claudio Brites]

22 fevereiro 2011

Em Belo Horizonte

 [Abertura no Palácio das Artes: Wilmar Silva (curador do Portuguesia) e Ignacio Martínez-Castignami (do Instituto Cervantes)
 


[Primeiro encontro: Gervasio Monchietti (ARG), em pé; Ronald Augusto (RS) e José Inácio Vieira de Melo (BA)]

17 fevereiro 2011

PORTUGUESIA

VERÃO ARTE CONTEMPORÂNEA APRESENTA

PORTUGUESIA 
FESTA DA POESIA DE LÍNGUAS PORTUGUESAS E ESPANHOLAS

Belo Horizonte torna-se a cidade da poesia com a edição mundial do Encontro Internacional PORTUGUESIA Festa da Poesia de Línguas Portuguesas e Espanholas, no Verão Arte Contemporânea, durante os dias 18, 19 e 20 de fevereiro de 2011, no Palácio das Artes e no Instituto Cervantes, com a participação de poetas e artistas do Brasil e do exterior, apresentando as línguas da poesia através de livros, vídeos, debates, autógrafos, performances, instalações, onde a literatura acontece em suas mais diferentes linguagens, sendo a poesia um espelho entre a vida e a arte.

PORTUGUESIA é um projeto de pesquisa de poesia de Wilmar Silva, autor do livro-dvd PORTUGUESIA Minas entre os povos da mesma língua, antropologia de uma poética, volume 1 de uma série sem fim, com 101 poetas de Portugal, Guiné-Bissau, Cabo Verde e Brasil (Minas Gerais), contra-antologia com 5 poemas de cada um dos autores, mais DVD encartado ao livro com 2 horas de videopoemas, gravado in loco durante as suas viagens pelo mundo de línguas portuguesas.        

Além de PORTUGUESIA Festa da Poesia de Línguas Portuguesas e Espanholas em Belo Horizonte, em 2011 o projeto chegará a Casa de Portugal em São Paulo, ao FestiPoa em Porto Alegre, a Casa Museu Camilo Castelo Branco, em Vila Nova de Famalicão, Portugal, onde acontece desde 2009 uma edição do projeto, através de uma realização da Cámara Municipal de Vila Nova de Famalicão.     


3ª EDIÇÃO 18 E 19 E 20/02/2011

VERÃOARTECONTEMPORÂNEA52011

PALÁCIO DAS ARTES
INSTITUTO CERVANTES

“PORTUGUESIA CONTRAANTOLOGIA: MINAS ENTRE OS POVOS DA MESMA LÍNGUA, ANTROPOLOGIA DE UMA POÉTICA” PROJETO DE PESQUISA DE POESIA DE LÍNGUAS PORTUGUESAS E ESPANHOLAS

BELO HORIZONTE MINAS GERAIS BRASIL


CURADORES
WILMAR SILVA (autor do projeto), LUÍS SERGUILHA, REGINA MELLO

POETAS E ARTISTAS CONVIDADOS

Portugal: Jorge Melícias, Luís Serguilha
Angola: Isidro Sanene
Argentina: Gervasio Monchietti
Espanha: Ignacio Martínez-Castignani
Finlândia: Rita Dahl
Brasil/Rio de Janeiro: Afonso Henriques Neto, Camila Vardarac, Elaine Pauvolid
Brasil/São Paulo/SP: Edson Cruz, Ivani Ranieri
Brasil/Porto Alegre/RS: Fernando Ramos, May Pasquetti, Ronald Augusto
Brasil/Salvador/BA: José Inácio Vieira de Melo
Brasil/Uberaba/MG: Guido Bilharinho
Brasil/Belo Horizonte/MG: Ana Gusmão, Babilak Bah, Brenda Marques Pena, Bruna Piantino, Camila Buzelin, Cristina Borges, Dagmar Braga, Flávia Craveiro, Francesco Napoli, Gilberto Mauro, Gonzaga Medeiros, Helena Soares, Jairo Faria Mendes, João Baptista Santiago Sobrinho, Joaquim Palmeira, Jovino Machado, Leonardo Morais, Lucas Guimaraens, Mário Alex Rosa, Mônica de Aquino, Olga Valeska, Patrícia Avellar Zol, Regina Mello, Rubens Rangel, Simone Andrade Neves, Wagner Moreira, Wallace Armani, Wilson de Avellar, Wilmar Silva.       

DIA 18 DE FEVEREIRO DE 2011, SEXTA-FEIRA
PALÁCIO DAS ARTES JARDINS INTERNOS E CINE HUMBERTO MAURO 

14h00 PALÁCIO DAS ARTES
INSTALAÇÃO VISUAL
C/ REGINA MELLO
INSTALAÇÃO SONORA “PRTGSOUUEIA”
C/ DANIEL MENDONÇA

14h30
ABERTURA Ione de Medeiros & Patrícia Avellar Zol & Ignacio Martínez-Castignani  
APRESENTAÇÃO “PORTUGUESIA”, por Wilmar Silva, Autor do Projeto   

15h00
PERFORMANCE “GUESAS LIVRES”
C/ Ana Gusmão & Flávia Craveiro & Gonzaga Medeiros & Helena Soares   

15h30
POMAR

17h00   
PERFORMANCE “GUESAS LIVRES”
C/ Bruna Piantino & May Pasquetti & Mônica de Aquino 

17h30 
PROVOCAÇÃO A POESIA EM TRANSE: IMAGINÁRIOS DE RESISTÊNCIA
MEDULAS DE DIÁLOGO A POESIA DO EXCESSO & AIHEITA VAN GOGHIN KORVASTA & ANÔMALOS
C/ Jorge Melícias & Rita Dahl & Wagner Moreira
Provocador Wilmar Silva  

19h00
PERFORMANCE “GUESAS LIVRES”
C/ Edson Cruz & Isidro Sanene & Wallace Armani

19h30
CINE HUMBERTO MAURO PALÁCIO DAS ARTES
ABERTURA DA MOSTRA “PORTUGUESIA.DOC”
HOMENAGEM A GUINÉ-BISSAU
C/ PORTUGUESIA.DOC ABISSAL
OU ETNIA, MISÉRIA, BELEZA, ESPERANÇA

20h30
PERFORMANCE “GUESAS LIVRES”
C/ Jairo Faria Mendes & Gervasio Monchietti & Ronald Augusto

22h00 ANTROPOFAGIA E NOITE


DIA 19 DE FEVEREIRO DE 2011, SÁBADO
INSTITUTO CERVANTES

10h00/12h00 PRAÇA RAUL SOARES
PERFORMANCE “COSTURA DE RUA”
C/ Wilson de Avellar & Beatriz de Almeida Magalhães & Bordadeiras de Histórias da Vila Mariquinhas

12h00/15h00 ANTROPOFAGIA

15h00 INSTITUTO CERVANTES
PERFORMANCE “GUESAS LIVRES”
C/ Camila Vardarac & Dagmar Braga & Olga Valeska & Regina Mello 

15h30
PROVOCAÇÃO A VIDA E A MORTE DO SOL OU
MEDULAS DE DIÁLOGO OU METAFORMOSE VIDA E ARTE
C/ Gervasio Monchietti & Ronald Augusto & José Inácio Vieira de Melo 
Provocadores Gilberto Mauro & Joaquim Palmeira     

17h00
PERFORMANCE “GUESAS LIVRES”
C/ Ignacio Martínez-Castignani & Lucas Guimaraens & Simone Andrade Neves     

17h30
PROGRAMA AO VIVO rádio educativa UFMG 104,5 www.ufmg.br/radio
TROPOFONIA uma experiência de linguagem – Prêmio Roquette-Pinto ARPUB/MinC
Homenagem a Affonso Ávila
C/ Cristina Borges & Francesco Napoli & Wilmar Silva & Gervasio Monchietti

18h30 EQUINÓCIO

19h00
APRESENTAÇÃO/LANÇAMENTO LIVRO KOA`E  
C/ Luís Serguilha & Ivani Ranieri
Provocador Elaine Pauvolid

20h30
PROVOCAÇÃO GUIMARAENS: ORIGEM E RUPTURAS DE UMA TRADIÇÃO
MEDULAS DE DIÁLOGO SIMBOLISMO, MODERNISMO, POESIA MARGINAL
C/ Afonso Henriques Neto & Lucas Guimaraens
Provocador Mário Alex Rosa

21h30
POMAR

22h00 NOITE


DIA 19 DE FEVEREIRO DE 2011, SÁBADO, 17 ÀS 22H
PALÁCIO DAS ARTES CINE HUMBERTO MAURO

MOSTRA “PORTUGUESIA.OUVISUAIS” VIDEOPOEMAS

Mostra A  17h
“Portuguesia parte I” dir. Wilmar Silva 60’

Mostra E  18h
“A Poética de Philadelpho Menezes” dir.  Marco Antônio Coelho Filho   26’16”
“Demetrio Stratos”  18’40”

Mostra I  19h
“Leopoldo Maria Panero”  4’07”
“Al Berto” 3’19”
“Léopold Sédar Senghor” dir. Rokia Traore  3’50”
“Cântico Negro de José Régio” por Marco D’Almeida  3’49”
“Perto de Ninguém”  dir. Marcelo Costa Baiotto  0’36”
“Gol de Regina Mello”  2’44”
 “Extinção de Régis Bonvicino” por Antônio Abujamra 1’06”
“Fluxo” dir. Lígia Moraes  1’30”
“Código Postal  de João Negreiros” por Cátia Cunha e Silva  5’18”
“Convergências de Tchello D'Barros” dir. Tchello D'Barros  4’36”
“Hai Kai” Dir. Rodolfo Magalhães 15’
“Lampejos “ dir. Luiz Edmundo Alves 10’

Mostra O  20h
“Neonão com Wilmar Silva e Francesco Napoli” dir. Regina Mello e Giovane Gomes  10’20”
“Desertos de Vera Casa Nova” dir. Afonso Klein  2’55”

Mostra U  21h
“Hilda Hilst: Casa do Sol Vivo” prod. Cristiane Grando e Leo Lobos 28’
“Florbela Espanca” prod. Gabriela Mangieri  3’28”
“Roberto Piva” 10’25”
“Prazer em te desconhecer” dir. Jairo Faria Mendes e Adilson Siqueira  15’


DIA 20 DE FEVEREIRO DE 2011, DOMINGO
INSTITUTO CERVANTES

10h00/12h00
LANÇAMENTO/PERFORMANCE EM TRANSE VIAGEM AO CURRAL DEL REY PRAÇA DA LIBERDADE
ANU (10 anos 1ª edição/2001, 6ª edição/2011 Yerba Mala Cartonera/Bolívia) e 
ESTILHAÇOS NO LAGO DE PÚRPURA (5 anos 1ª edição/2006, 6ª edição/2011 Editora Multifoco, coleção Orpheu/ Rio de Janeiro/Brasil)  
C/ Camila Buzelin

12h00/15h00
ANTROPOFAGIA

15h00 INSTITUTO CERVANTES
PERFORMANCE “GUESAS LIVRES”
C/ Afonso Henriques Neto & Elaine Pauvolid & Jorge Melícias & Mário Alex Rosa

15h30
PROVOCAÇÃO INTRAEXTRAINTERNET: ESPAÇO EM REDES
MEDULAS DE DIÁLOGO ORIGEM, CAOS, MUNDO, NADA   
C/ Babilak Bah & Edson Cruz & Guido Bilharinho
Provocador Jovino Machado

17h00
PERFORMANCE “CORPOLETRADO”
C/ Babilak Bah

17h30
PROVOCAÇÃO PORTUGUESIA: A VIAGEM EM BUSCA DE   
MEDULAS DE DIÁLOGO NATUREZAS DO SÉCULO XXI
C/ Fernando Ramos & Luís Serguilha & Wilmar Silva
Provocador Ronald Augusto

18h30 EQUINÓCIO

19h00
APRESENTAÇÃO/LANÇAMENTO LIVROS A TERCEIRA ROMARIA & ÁRVORE EM V
C/ José Inácio Vieira de Melo & Francesco Napoli & Rubens Rangel
Provocador Leonardo Morais  

21h00
PERFORMANCE “GUESAS LIVRES”
C/ Guido Bilharinho & João Baptista Santiago Sobrinho & Rita Dahl

21h30 RAPADURA &

22h00 LIBERDADE LIVRE

DIA 20 DE FEVEREIRO DE 2011, DOMINGO, 17 ÀS 22H
PALÁCIO DAS ARTES CINE HUMBERTO MAURO

MOSTRA “PORTUGUESIA.OUVISUAIS” VIDEOPOEMAS

Mostra A  17h
“Portuguesia parte II” dir. Wilmar Silva 60’

Mostra E  18h
“Banquete Antropofágico de Mazzilli” dir. Rodolfo Magalhães  7’
“A Verdade de Cruzeiro Seixas” por Antônio Abujamra  0’32”
“Extracción de la piedra de la locura de Alejandra Pizarnik” por Ingrid Pelicori 8’03”
“Francesco Napoli” dir. Regina Mello  1’31”
“Ana Hatherly” dir. Héctor Amador Matehuala  3’47”
“O Pavão Negro de Ana Hatherly”  video espontâneo  1’32
“Poesia das Sombras II de Regina Mello”  3’45”
“Quatro Cantos do Caos de Melo e Castro por Márcio-André” dir. Regina Mello  5’20”
“Lesma de Manoel de Barros” por Família Espíndola 1’24”
“Os olhos de João Negreiros”  1’24”
“Slam par Manu de Léopold Sédar Senghor” 3’50”
“Sophia de Mello Breyner Andresen” por Maria Bethânia e Maria Andresen  1’12”
“Testamento de Alda Lara” por Reymundo e Maria Figueiredo 2’16”
“Procissão de João Villaret”  2’47”

Mostra I  19h
“Arthur Rimbaud” 47’

Mostra O  20h
“Belo Horizonte Bem Querer” por Manoel de Barros, Henriqueta Lisboa e Laís Corrêa de Araújo  3’
“Cruz e Sousa - O Poeta do Desterro”  por Kadu Carneiro  dir. Sylvio Back  5’04”
“Bandeiras de Guilherme Mansur”  0’45”
“Chuva de Poesia de Guilherme Mansur”  0’45”
“Lágrima da Preta de António Gedeão”  1’36”
 “Veinte Siglos de Alfonsina Storni” por Camila C.  0’54”
 “Atlas de Wilmar Silva” 1’04”
“Autografia de Mário Cesariny” dir. Miguel Gonçalves Mendes  1’50”
“Poemas Visuales de Fernando Aguiar” 5’06”
“Esta Ciudad de Leo Lobos” 1’48”
“Doblo Noche de Lezama Lima” vídeo espontâneo 0’45”
“Estou Vivo e Escrevo Sol de António Ramos Rosa” por Gilberto Mauro e Wilmar Silva dir. Regina Mello  1’42”
“A Seta de Diane Mazzoni” 0’21”
“A Catedral de Alphonsus de Guimaraens”  por Lucinda e alunas  2’57”
“Florbela Espanca” prod. Gabriela Mangieri  3’28”
“Poemas de Ernesto Cardenal”  3’12”
“El Lado Oscuro del Corazón de Oliverio Girondo” por Doctor Mostaza 1’14”
“Extracto de Altazor de Vicente Huidobro” por Alejandra Valenzuela 2’

Mostra U  21h
 “Poesia Concreta”  dir. Sérgio Zeigler e Walter Silveira   45’




11 fevereiro 2011


o mendigo


o mendigo morreu.
calado.
calejado da luta pela vida.
herói anônimo de tantos
milagres econômicos.

não teve homenagens póstumas.
nem epitáfios espirituosos.

foi enterrado
sem pompas em cova rasa
o indigente.

apenas
um sabiá trinava
ao ouvido do morto
um canto melancólico
e pungente.








09 fevereiro 2011

   saliva


não vou falar

sobre aquilo tudo
que não sei
       faço de conta

não vou nomear
o que não carece
fazer aquela pergunta
desnecessária
constelação de saliva
em boca úmida

vou ficar aqui
eu e meu teclado
amarelado
o monitor Flatron
a piscar
uma folha Word
a esperar

palavras
palavras
palavras

mundos não
mudos habitados
por ninguém.

27 janeiro 2011

bile negra


há manhãs quando
nem o cheiro
do café
o jornal aberto
sobre a mesa
o sorriso franco
da amada
o chamado doce
de meu filho
o latido amigo
do cachorro
o frescor florido
da jabuticabeira
o canto verde
das maritacas
o azul-celeste
de janeiro
suprem o oco
do corpo a corpo
com a vida
o sumo
desperdiçado
a dádiva
                                                  imerecida

    

18 janeiro 2011

As coisas belas são difíceis


















A frase do título acima foi mencionada por Platão e revela uma sabedoria que pode ser aplicada à vida, às artes em geral e, mais especificamente, às tragédias gregas.

A tragédia é um gênero literário que, apesar de passados 25 séculos, ainda mantém o fascínio e a sua importância. Continuamos, de tempos em tempos, a tomar emprestado dos gregos seus temas e seus personagens trágicos para aprender mais sobre nós mesmos e, quiçá, experimentarmos alguma catarse.

O trágico é uma dimensão fundamental da condição humana e da história. Para nos reconhecermos como demasiadamente humanos que somos e daí podermos extrair algo que nos transcenda, ou nos redima, temos que re-conhecer o trágico.

Importante notar que o trágico não é a infelicidade ou o dramalhão, nem a catástrofe propriamente dita e televisada de nossa era. O trágico é uma contradição, um paradoxo, uma dialética, mais existencial do que lógica e sem qualquer superação. É a vivência plena do destino ou missão de cada um. Para o grego antigo, a existência é trágica por excelência.

Ler e conhecer as tragédias gregas são fundamentais para nutrir nosso espírito, para fortalecer nossa humanidade em toda a sua fragilidade.

A tragédia Édipo Rei (ou Édipo Tirano, ou o Rei dos Pés Inchados – dependendo da tradução), de Sófocles, talvez seja a representação mais acabada da condição trágica do ser humano. A ideia que permeia a história de Édipo e sua esposa/mãe Jocasta é a de que “nenhuma criatura humana pode fugir a seu destino”. Por mais que Édipo tenha tentado driblar o que o oráculo no templo de Delfos lhe vaticinara não o conseguiu. Mesmo sem saber (inocente, entre aspas), matou o seu pai Laio e acabou casando com sua mãe (que também não sabia ser ele o filho mandado para a morte, justamente para que não pudesse cumprir o oráculo terrível de que mataria o próprio pai).

Édipo é confrontado por Tirésias (talvez o personagem mais interessante da peça), o cego adivinho que tem a coragem de enfrentar o poder instituído, o Rei, e revelar-lhe sua verdadeira condição. Tirésias nada teme, pois está do lado da verdade. Mas não deixa de manifestar um lamento pungente: “Ai de mim! Como é terrível saber, quando o saber de nada serve a quem o possui!”

Outra revelação enunciada pelo coro (cujas falas representam o senso comum da cidade e da cultura daquela época) é a de que não existe felicidade para os mortais, no sentido que chamamos no budismo de “felicidade absoluta”. O coro entoa: “Pobres gerações humanas, como vossa existência nada vale a meus olhos! Qual o homem que obtém mais felicidade do que parecer feliz, para depois, dada essa aparência, desaparecer do horizonte? Tendo teu destino como exemplo, ó desditado Édipo, não posso mais julgar feliz quem quer que seja entre os homens”.

No fundo, a moral de qualquer tragédia é explicitada pela fala final do Corifeu. Ele lembra que Édipo havia sido invejado por todos na cidade. Quem não havia desejado estar no lugar dele? Édipo, o decifrador de enigmas famosos, que se tornou o primeiro dos humanos e se casou com a mais bela das rainhas. Sua fortuna não durou muito. Hoje, a miséria se apossou dele. “Guardemo-nos, então, de chamar um homem feliz, antes que ele tenha transposto o termo de sua vida sem ter conhecido a tristeza.”

Sábios, esses gregos.

13 janeiro 2011

A canção do venerável Krishna


    Ficara claro a todos que para as duas famílias só restava a guerra. Quando o dia e a hora que não poderiam ser evitados chegaram, os dois grandes exércitos se postaram frente a frente, com seus carros de guerra, seus corcéis e seus estandartes, como se fossem duas sinistras cidades rivais. Então soaram as trombetas de guerra, as conchas, tambores e gongos. O barulho tornavase ensurdecedor.
    Arjuna avançava no meio dos dois exércitos guiado por Krishna. O sinal para o início da batalha, do lado dos Pândavas, seria dado por ele. Nesse instante crucial, Arjuna pareceu titubear, entrou em desespero e dirigiu‑se a Krishna, inspirando profundamente entre um pensamento e outro:
    – Oh, Krishna, vendo minha gente e parentes postados para a luta, meus braços tremem, minha boca se resseca e meu corpo todo se arrepia. Meu arco desliza de minhas mãos, e não consigo me manter em pé. A vida que há em mim parece flutuar. Não consigo ver bem algum no fato de matar minha própria gente. No fundo, não quero a vitória nem o reino. O que são os deleites da vida? Que orgulho poderemos ter, se matarmos Duryodhana e sua cambada de saqueadores? Como poderemos ser felizes depois disso? Só a culpa seria a nossa companheira. Uma família destruída tem o seu darma corrompido. Com a perda do darma não haverá mais norma, lei, direito, justiça, costume, tradição, moral, piedade e, quiçá, religião. Se a ausência de leis prevalecer, haverá um transtorno na administração dos deveres da própria família, o que aprofundará o desequilíbrio. Seria melhor para mim se Duryodhana ou Karna me matassem na batalha, desarmado e sem resistência. Como eu poderei combater e ferir Bishma e Drona, que foram meus mestres? Matar os mestres só para obter a vitória ou bens seria o mesmo que nadar no próprio sangue. Difícil dizer o que seria pior: nós vencermos a batalha ou eles nos vencerem. Não consigo ver saída para esse dilema. Por favor, divino Krishna, acabe com minha aflição!
    Foi um momento solene em meio a um confronto que pairava paralisado e em silêncio repentino. Arjuna, em seu desabafo, deslizara no assento de seu carro e deixara seu arco e flecha escaparem de suas mãos dominadas pela dor. Foi então que Krishna, cheio de benevolência, tomou o fio do discurso e lançou-o sobre Arjuna:
    – O que é isso, Arjuna? De onde vem esse desânimo? Não aja como um fraco. Elimine a covardia de seu coração e levante‑se! Você se lamenta por quem não merece lamento. Um sábio alegra‑se na adversidade e se mantém firme na alegria e, por isso, conquista a imortalidade. Aquilo que não é nunca se tornará algo e aquilo que não se tornou algo é porque não era. Nada poderá causar a destruição daquilo que ainda não se deteriorou. Assim como um homem veste roupas novas após tirar as velhas, assim também, após eliminar a carne velha, o homem se cobrirá com uma nova. No meio de toda ação, você deve permanecer livre de todo apego. Precisa aprender a ver uma pepita de ouro e um montículo de estrume da mesma maneira. A morte é certa para quem nasce, e o nascimento é certo para quem morre. Por isso, não deve lamentar algo que é inevitável. Essa essência vital no corpo de todo ser nunca morrerá, portanto, não deve lamentar‑se. Você deve cumprir seu destino sem vacilar. Se não participar da guerra como pede seu darma, você será como um erro ambulante. Não se pode escapar de praticar um ato que deva ser praticado, e essa ação, com certeza, deixará sua marca latente. Você deve se preocupar sempre com a ação, e não com os frutos da ação. Não se torne a causa do fruto da ação, não fique preso à inação.
    Com muita benevolência, Krishna conduziu Arjuna por meio de todas as sutilezas de seu espírito. Mostrou para ele as mais profundas manifestações de seu ser e onde era seu verdadeiro campo de batalha: lá onde cada um tem que lutar sozinho, sem guerreiros nem flechas. Mostrou‑lhe a verdade e seus desdobramentos. E continuou Krishna:
    – Toda entidade viva é uma alma individual. Todas estão mudando seu corpo a todo momento, ora manifestando‑se como criança, ora como jovem ou idoso, embora permaneça a mesma alma eternamente sem mudança. Cada alma individual, por fim, transmigra de um corpo para outro, e é certo que terá tantos outros nascimentos, espirituais e materiais. Por isso, não há razão alguma para lamentar‑se por causa da morte. Do apego origina‑se o desejo. Do desejo gera‑se a cólera. Da cólera cria‑se a estupidez e as ações distorcidas. E as ações inadequadas geram sofrimento a si e aos outros. O homem que abandona todos os desejos e caminha sem pretensão, posses e livre do apego ao ego conquista a paz. Eu, Arjuna, sou o tempo que, avançando, faz a destruição do mundo. Por isso, levante‑se e conquiste a glória. Vença seus inimigos e conquiste um reino próspero. Seja apenas meu instrumento, porque é por mim que, antes de tudo, eles serão mortos. Coragem, brilho, firmeza, habilidade e, no combate, a força sem medo, a generosidade e o exercício do poder. Essa é a ação própria de sua natureza. Não a contrarie. Arjuna, você escutou o que eu disse com a mente reta como o tiro de sua própria flecha? Será que consegui dissipar sua ignorância?
    – Sim, Krishna – ele respondeu. – Sinto minhas ilusões se desfazerem uma a uma. Sou até capaz de contemplá‑lo em toda a sua plenitude. Através de você, vejo a vida e a morte. Por sua causa, agora estou firme. Minhas dúvidas foram dispersas e eu agirei conforme suas palavras. É costumeiro o tolo se esquecer nos momentos cruciais o que aprendera em ocasiões normais.

Ganesha estava maravilhado por relembrar essas santas palavras. Pena que a história tinha que continuar e muitas delas seriam esquecidas por Arjuna.

[Minha versão para jovens do famoso livro do Bhagavad Gita (A canção do venerável Krishna), um dos capítulos do Mahâbhârata - Vide edição aí ao lado]

11 janeiro 2011

epifanias

um girassol ilumina
o silêncio

das coisas sem voz
dos seres sem vez

de tudo que nunca

veio a ser


 

09 dezembro 2010

Poesia grapiúna agora









Uma segunda edição pode ser comparada à releitura de um livro. Reler é coisa de quem gostou da primeira leitura ou, no mínimo, ato de quem ficou intrigado ou mexido com o que leu imediatamente. A segunda edição de um livro de poemas é acontecimento incomum, infelizmente, em nossos dias – e em verdade sempre o foi, mas tem sido cada vez mais incomum, a ponto da primeira edição já ser, ela mesma, uma raridade. Se tal acontece, é porque um milagre chegou perto de acontecer, se não aconteceu, de fato. Mas atentemos para o que afirmou Horácio: “saepe stilum vertas, iterum quae digna sint legi scripturu, neque te ut miretur turba labores, contentus paucis lectoribus”1 .

Eu, dentro de meu mundo supostamente cosmopolita, metropolitano e bastante, me sabia pouco, muito pouco, em matéria de poesia grapiúna. Sosígenes Costa, Telmo Padilha, Ildásio Tavares, Florisvaldo Mattos, Adelmo Oliveira, Cyro de Mattos, Jorge Medauar – que em verdade sempre me impressionou mais escrevendo contos – e um ou outro poema avulso de nomes que já não me ocorrem mais. Devo a um paulista de Marília o reencontro com a poesia de meu estado, o poeta e ensaísta Gustavo Felicíssimo, que vem fazendo um trabalho irreprochável e decisivo na fixação de poetas grapiúnas, dentro da história da literatura baiana e brasileira.

Diálogos revela um contato com duas alteridades: a conversa entre poetas bastante diversos entre si; a conversa entre poetas grapiúnas e o mundo, a água ou terra que cerca essa ilha ou rio. No livro ora publicado há a poesia de linguagem coloquial, que lembra muito a obra de um Robert Frost (Edson Cruz, Heitor Brasileiro), há sonetos de grande ousadia mórfica (Piligra), haicais sem qualquer ranço de outro país ou tradição (Mither Amorim), poemas que vêm da influência oitentista brasileira do puzzle, certa pulsação das regras, com seus versos sinuosos e intimistas (Noélia Estrela, Rita Santana, Daniela Galdino), um memorialismo consistente que nos faz pensar em Miguel Torga – o poeta – e alguns outros poetas portugueses do século XX (George Pellegrini), e ainda poemas que são uma mistura de linhas e destinos (os poemas de André Rosa, os de Fabrício Brandão e os do caçula da coletânea, Geraldo Lavigne, nascido em 1986, mas que “disputa” de igual para igual com os demais escolhidos). Poesia é tradução, sempre. É a busca incessante pela palavra mais adequada àquilo que se sente e que se tornou idéia, pensamento, meditação. Afirmo, sem medo algum de passar por precipitado ou leitor desatento, que os poetas aqui reunidos chegaram o mais próximo possível de si mesmos. Mais próximo do que chegaram e talvez houvéssemos perdido a escrita de cada um deles, uma vez que certamente não conseguiriam mais voltar ao mundo dos fenômenos.

A diversidade, penso eu, é uma das mais louváveis características da antologia organizada por Felicíssimo, que tem a maturidade e a inteligência de encontrar qualidade – o belo – em todo e qualquer tipo ou gênero de poesia, sem discriminações, escolas, corporativismo. Se pensarmos na origem do termo “antologia” – do grego anthos: flor; logos: de legein, colher, juntar. Daí se segue a idéia de buquê de variado perfume. Nos períodos clássico e bizantino da literatura grega, produziu-se imensa antologia de poemas curtos, de diversos autores, a Antologia Grega –, teremos entendido bem o livro que pode ser descerrado pelo leitor a qualquer instante, com todos os seus perfumes diversos.

Eu, que sou e pretendo ser, sempre, parcial – uma vez que sou pessoa e indivíduo –, não desejo esconder minhas inclinações: me identifico e sou levado facilmente pela poesia de extrema sofisticação e sutileza, realizada pelo poeta, já bem localizado em nossa mídia, Marcus Vinícius Rodrigues, diversas vezes premiado. E ainda pela poesia de Edson Cruz, cheia de sagacidade e epifanias que se desdobram para além dos pequenos poemas que costuma realizar.

Espero uma terceira edição do Diálogos de Gustavo Felicíssimo e dos poetas grapiúnas de hoje. Uma antologia é um convite para o livro solo de um poeta; é o aperitivo para uma comida mais substanciosa e “pesada”.

Para amanhã, peço uma nova antologia. Sempre.

1 – “Revolve muitas vezes o estilo, se desejas que aquilo que hás de escrever seja digno de ser lido duas vezes e não sofras porque a turba te admira, sê satisfeito com poucos leitores”, em tradução de Mary Kimiko Murashima.


Henrique Wagner é poeta e crítico de arte.

Blog do Lçto: http://livrodialogos.blogspot.com/